Camilo CalandreliMúsica

As Inferências do Marxismo Cultural na Música Brasileira

A degradação intelectual e espiritual artística, na formação da identidade nacional brasileira é notória e alastra-se alarmantemente por toda a sociedade.

A fragilidade de nosso povo nos faz refletir sobre a importância da formação cultural na elevação dos progressos técnicos e morais, tão fundamentais na emancipação de valores que nos consolidariam como uma nação próspera, saudável e, portanto, mais feliz.

Se por um lado, a humanidade se tornou mais saudável, pois a realidade do progresso é visível, como exemplo, a expectativa de vida e as mais diversas atividades esportivas, artísticas e contextualizações culturais que nos conduzem a uma melhor qualidade de vida na terceira idade. Por outro lado, a vida intelectual do brasileiro e seus hábitos não condizem com esses avanços tecnológicos e anseios pela felicidade plena.

Questione os intelectuais brasileiros, veja quais são seus artistas favoritos. Eles citarão inúmeros excelentes escritores como: Guimarães Rosa, Kafka entre outros. Citarão cineastas como: Bergmann, Kubrick, talvez Glauber Rocha e Fellini. Além dos nomes citados, com a inserção da filosofia conservadora, nomes como: Burke, Scruton, Corção, Ferreira dos Santos, Olavo de Carvalho figuram nessa realidade.

Quando questionarmos sobre a música, o que responderão? Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Hermeto Pascoal. Não ouviremos um intelectual moderno falar sobre Villa-Lobos, Carlos Gomes, Francisco Mignone ou Camargo Guarnieri. Tão pouco, ouviremos sobre Stravinsky, Wagner, Liszt ou Shostakovich. A música erudita simplesmente não se encontra no dicionário das pessoas cultas brasileiras e a música contemporânea menos ainda.

Para esses pensadores, a Tropicália é um movimento intelectual à altura dos mais fantásticos filmes de Ingmar Bergmann, e por vezes, não desmerecendo sua qualidade artística, colocam-na no mesmo plano intelectual que as óperas de Carlos Gomes, ou mesmo as Bachianas e Choros de Villa-Lobos. Isso é uma tremenda desonestidade intelectual e um engodo total.

A degradação dos valores intelectuais na formação cultural brasileira tem como pilar fundamental a aplicação do marxismo cultural na música, ou a sua proletarização.

Villa-lobos era um compositor “pós-moderno” por essência, assumindo todas as técnicas modernas de composição, olhando com carinho e devoção para uma arte ativamente nativista, comungando os valores culturais herdados por seus antecessores em inúmeros trabalhos de pesquisa sobre a música indígena e folclórica brasileira.

A música genuinamente brasileira, aquela que comunga dos valores das mais diversas etnias que consolidam nossa hegemonia cultural, foi elaborada primeiramente por Carlos Gomes em suas óperas como: Il Guarany e Lo Shiavo, e nos mais profícuos trabalhos de Alberto Nepomuceno, cabendo a Heitor Villa-Lobos, em seu contraditório contexto, culminar essa lograda tentativa de nacionalização da alta cultura e da música brasileira, nos primeiros quarteis do Século XX, que por sinal, era mal visto pelos intelectuais de esquerda, pois foi beneficiado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas e pela sua simpatia, nos anos 30, pelo nazismo, o que é no mínimo contraditório por parte destes letrados.

A Semana de Arte Moderna, em 1922, coloca frente a frente os dois pilares fundamentais para o desmembramento da cultura brasileira em amplos debates.

De um lado Oswald de Andrade, líder artístico comunista, que discursava sobre a importância do proletariado conhecer e absorver a alta cultura de sua literatura de vanguarda. Do outro lado, Mário de Andrade que refutava a ideia de Oswald de Andrade alegando ser classista e rompendo com os verdadeiros interesses das massas, rompendo em uma célebre carta com as diretrizes da Semana de Arte Moderna.

Ambos eram comunistas na prática ou na simpatia dos valores soviéticos. Oswald de Andrade, mais tarde se desligaria do partido comunista, enquanto, Mario de Andrade influenciaria novos artistas em seu engajamento político, como exemplo, Francisco Mignone, o primeiro a reger Shostakovich no Brasil e muito ligado ao Partido Comunista.

A segunda tentativa de inserir a cultura marxista na formação intelectual brasileira acontece com o musicista alemão Hans-Joachim Koeullreutter. Ele desempenhou uma notória difusão e influência musical contemporânea europeia, introduzindo as técnicas de composição de Schoenberg e Hindemith, lançando em 1944 o “Manifesto Música Viva”, no Rio de Janeiro.

Tal movimento amalgamava a socialização da população brasileira ao dodecafonismo e demais técnicas composicionais “revolucionárias”, tornando a música como um ativo elemento político sintomático do pós-guerra, dizendo: “A Música é um produto da vida social… reflexo do essencial na realidade… superestrutura de um regime… compreendendo que o artista é um produto do meio e que a arte só pode florescer quando as forças produtivas tiverem atingido certo nível de desenvolvimento… não há arte sem ideologia…”.

O “Manifesto Música Viva, combatia o nacionalismo e academicismo, forças que valorizavam a individualidade em detrimento da coletividade do ensino e da práxis musical. Os principais compositores deste movimento foram: Cláudio Santoro, Edino Krieger, Guerra-Peixe e Eunice Katunda, todos ligados indiretamente e por vezes diretamente ao Partido Comunista.

O Marxismo Cultural nas artes e o excesso de politização fizeram com que esses compositores rompessem com o Manisfesto retornando às práticas musicais nacionalistas e mais próximas da tão desejada comunicação de massas, liderados pela política cultural soviética de Vladimir Zhdanov. Esse novo socialismo musical baseava-se nos modelos e símbolos do realismo socialista soviético, tendo como grandes obras a “Suíte Sinfônica no. 1 de Guerra-Peixe”, sendo inclusive gravada pela Orquestra Estadual de Moscou e o “Canto do Soldado Morto” de Eunice Katunda.

Camargo Guarnieri, aproveitando-se da situação “bipolar” dos compositores brasileiros, lança a sua “Carta Aberta” em 1950 e publicada pelo jornal “O Estado de São Paulo”, criticando abertamente a música dodecafônica, exaltando nitidamente os conceitos Zdhanovistas. Mesmo não sendo comunista, Guarnieri tem em sua família parentes ligados ao partido comunista, como o ator Gianfrancesco Guarnieri. Em sua carta escreve: “é preciso que se diga a esses jovens compositores que o dodecafonismo, em Música, corresponde ao Abstracionismo em Pintura, ao Hermetismo em Literatura, ao Exístencíalismo em Filosofia, ao Charlatanísrno em Ciência. É a expressão característica de uma política de degenerescência cultural, um ramo adventício ao da figueira-brava do Cosmopolitismo”.

Com a Guerra Fria, a efervescência da política brasileira por meio da influência dos pensadores marxistas nas universidades, os manifestos de Zdhanov e Guarnieri, aliados ao posicionamento de Mário de Andrade em seu famoso “Ensaio sobre a Música Brasileira” faz com que tenhamos uma nova tratativa de incursão do marxismo cultural na música brasileira.

No entanto, os valores da Escola de Frankfurt ainda não eram estudados e muito menos aplicados nesse modelo cultural, criando assim, uma arte de caráter nacionalista-socialista. A única dúvida, a partir de agora, era a seguinte: De onde vamos retirar as ideias que complementarão essa “arte de vanguarda”?

Essa resposta surge através do incentivo às músicas populares, que em pouco tempo, tornaram-se referência para a música de massa. Inicialmente a ideia era interessante e gozava de uma erudição singular, resgatando linguagens musicais de extremo bom gosto e conceitos elaborados através da união da música erudita e a música popular brasileira, como podemos ver no Movimento Armorial, criado por Suassuna e Nóbrega. Contudo, a Revolução de Maio de 68, liderada pelos pensamentos da Escola de Frankfurt, em Paris, colocou em prática, dentro das universidades e através do rompimento cultural com as tradições europeias, um novo conceito revolucionário calcado nos pensamentos de Marcuse e Foucault, e introduzido em diversos movimentos artísticos por Timothy Leary.

Ainda na música erudita, em meados dos anos 60, surge o Grupo Música Nova, formado por compositores de São Paulo, liderado por Olivier Toni, que retoma os conceitos da Neue Musik.

Tal conceito era baseado no serialismo integral que excluía os fundamentos básicos da construção musical no ocidente até o começo do século XX. A criação desse “novo vocabulário” musical abolia os ritmos periódicos, harmonia, melodia e toda a estruturação em torno da estética musical encontrada nas músicas de Bach, Mozart, Beethoven, Verdi, entre outros. Os grandes expoentes dessa corrente musical eram: Rogério Duprat (que depois serviria como apoio na criação de arranjos musicais e composições para a Tropicália), Gilberto Mendes, Willy Correa de Oliveira e Damiano Cozzela; todos embasados nos conceitos musicais adotados pelos alunos da Escola de Darmstadt, como: Luciano Berio, Stockhausen, Pierre Boulez, Nono, Pousseur.

Após insistentemente desconstruírem a música erudita, em prol de uma ideologia comunista com ares de década de 20, as consequências trágicas vieram à tona no século XXI. A perda de público em salas de concerto, teatros e locais onde são executados música erudita (exceto para os alunos universitários que na maioria das vezes fingem aprovar as ideias musicais de seus professores para serem inseridos dentro um nicho cultural), o desinteresse do público e de músicos, que são deficientes intelectualmente, emburrecidos pela cultura do entretenimento barato, uma geração desinformada e coladas nos programas midiáticos de baixo repertório, e até mesmo a “Alta Sociedade” tem por modelo a classe baixa, suas posturas, costumes, hábitos, vestimentas, ideologia progressista e faz das novelas e demais programas globalistas a matéria-prima do desenvolvimento intelectual.

A Música Erudita contemporânea está longe de se comunicar com a população em geral, cabendo ao progressismo e suas atuações nas interpretações de óperas. O marxismo cultural também interpreta as obras de Mozart, Verdi, Puccini e Wagner, colocando seus elementos através dos diretores musicais e cênicos, o papel de se comunicarem com a tão sonhada “sociedade das massas”.

O Movimento Hippie, assim como todos os demais movimentos parelhos ao marxismo cultural, levanta o estandarte do “progressismo” e sua assimilação através da cultura de massa. Aos poucos a introdução da Indústria da Cultura passa a ter um novo aliado. No Brasil, surgiu o Tropicalismo como grande corrente de difusão desse ideal, liderados por Caetano Veloso e Gilberto Gil, confundindo a população com o que seria Música Popular e Música de Entretenimento, dominados pela difusão dos veículos de comunicação. Os pensamentos de Marcuse e Foucault, com ampla estratégia gramscista e de Adorno, ganha forma e corpo com esses movimentos ditos “populares” dando continuidade ao processo de subversão ideológica.

Aos poucos, a degradação cultural ocidental passa a ser essencial para o sucesso do progressismo na música brasileira, mostrando todo seu repertório de destruição ética e moral nos anos 90, com exemplos mais espúrios como: Xuxa, É o Tchan e similares.

Essa intelectualidade leva a sério os enredos de novela, reality show; escutam Hip-Hop como sendo a vanguarda artística e assimilam o Samba-Rock, Funk, Lounge, Heavy Metal, Rock e Pop Rock como estruturas fixas para a formação de uma sociedade. A linguagem do Pop Rock, inclusive, determina as ações comportamentais da cultura de massa. Nesse momento, a Madonna, por exemplo, tem a capacidade de influenciar jovens mais do que a família ou mesmo que os professores bem intencionados.

A população está fissurada pela cultura inútil e pela música comercial. Qual será o nosso destino?

Aos conservadores, defensores da “velha nova música”, a música erudita sobreviverá, plena e soberana, sem intromissões progressistas em suas execuções ou espetáculos cênicos, sempre buscando soluções para fomentar a “Boa Música” em locais de concentrações públicas adequadas e esquecidas, como Igrejas e outros templos históricos.

Mas, se nada for feito no futuro próximo, a população irá ignorá-la solenemente, pois a cada dia o progressismo desinteressa as pessoas para apreciarem a música erudita, comunicação essa avessa à comunicação de massa e aos interesses da mídia, da indústria cultural, fadando-a ao ostracismo e excluindo-a como linguagem artística.

Camilo Calandreli, é formado pelo Depto. De Música da ECA-USP, pós-graduado em Administração Pública Cultural pela UFRGS, mestrando em Arte Lírica pela Unicamp. É Maestro, Cantor Lírico e Produtor Cultural em Ribeirão Preto.

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Camilo Calandreli

Camilo Calandreli, professor, músico, produtor cultural e ativista político. Formado pelo Depto. de Música da ECA-USP, Pós-Graduado em Administração Pública Cultural pela UFRGS, foi aluno de mestrado na UNICAMP, onde foi eleito Representante Discente no CONSU (Conselho Universitário), representante do Escola Sem Partido em Ribeirão Preto.

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