Cláudia Piovezan

O necrológio de Itamar Halbmann

Recentemente conheci aqui pela Rádio MCI a mais recente obra de Diogo Fontana, A Exemplar Família de Itamar Halbmann. Li o livro e encontrei nele o retrato muito bem elaborado da nossa época e do meio ao qual pertenço. Itamar se tornou quase um amigo íntimo, eu penso nele e me encontro com ele quase todos os dias. Numa dessas noites de insônia, imaginei como poderia ser o necrológio dessa figura.

Se você ainda não leu o livro de Diogo Fontana, sugiro que o leia imediatamente, e depois releia várias vezes, para poder absorver cada uma de suas sutilezas e estar apto a decodificar todos os Halbmanns que estão espalhados ao nosso redor, com suas hipocrisias e máscaras de virtude e de bom mocismo. Este livro já é um clássico desde o seu nascedouro.

Seria mais ou menos assim…

“Caro Zé,

Como está a vida no regalo da aposentadoria? Já se acostumou à vida no estrangeiro? Até hoje não entendi a sua rápida saída do Brasil após a eleição de 2018. Desde então, aqui tudo só melhora.

Nosso presidente, mesmo de dentro da infecta carceragem, continua fazendo um grande governo. Desde que conseguiu controlar a mídia e a internet, seu mandato tem seguido em céu de brigadeiro. Nenhuma notícia fake contra nós circula. Claro que os golpistas sempre dão um jeito de fazer circular clandestinamente alguma calúnia, mas nada que possa nos preocupar muito. Nossos blogueiros e ativistas são muito competentes e engajados na defesa do nosso projeto e fazem um ótimo trabalho de contenção de danos. O chato é voltar a ter de escrever cartas e mandar pelos amigos para não ter de passar pelo demorado crivo do nosso novo Ministério da Liberdade de Expressão. Até enviar pelos Correios é complicado, embora, felizmente, após retomarmos o poder, essa voltou a ser uma grande, confiável e lucrativa empresa, colaborando para o fortalecimento do nosso partido e das nossas bases. Mais uma grande sacada do nosso líder, fazer voltar tudo como era antes do fatídico 2006. Só confesso que não concordo com o grande líder nessa ideia de governar de dentro da cela, mas ele sabe o que faz. Isso de bancar o mártir para mobilizar o lumpemproletariado e manter toda a esquerda mundial em torno de sua figura como um injustiçado é sempre uma ótima estratégia e ainda confunde a maldita classe média, que segue ignorante como sempre.

Estou lhe escrevendo mesmo para lhe dar uma triste notícia, o falecimento do companheiro Itamar Halbmann neste começo de ano. Ele já andava meio abatido às vésperas da última eleição, preocupado, pois mais uma vez os fascistas tentaram ganhar manipulando as  massas, os nossos idiotas úteis. Coitados, ninguém consegue fazer isso melhor do que nós e as nossas urnas eletrônicas não nos decepcionam nunca. Itamar sempre foi cético, achava que não podíamos confiar no pessoal que colocamos nos tribunais. Que tolo! Formamos essa militância com Kant, Hegel e Marx desde o ensino básico e como duvidar que um plano que foi criado pela equipe do grande Soros e que deu certo nos Estados Unidos na eleição do nosso companheiro Obama não daria certo por essas bandas? Com um plano desses, nem o fracasso do atentado contra o adversário surtiu efeito contra nós em 2018 quando, como sempre, conseguimos usar o nosso crime a nosso favor.

Depois da morte de Halbmann, fiquei meio nostálgico, saudoso do início de nossas venturosas carreiras pelo interior do Paraná. O companheiro realmente fez uma bela e meteórica carreira na Magistratura da defesa do proletário e teve uma vida inteira dedicada à causa, como você bem deve se lembrar. Eram muito maldosos aqueles boatos de que ele tinha entrado pela porta dos fundos do Tribunal. Apesar de eu ter escolhido outra carreira, sempre tive o privilégio de poder estar perto dele e da Silvana. Ah, quanto aprendi e me diverti com aqueles dois!!

Mas bem me lembro que você teve umas diferenças com ele quando trabalharam juntos. Como me esquecer daquela confusão que você armou, em defesa das servidoras, quando ele chegou a Cascavel e a Silvana quis impedir as funcionárias de irem trabalhar de saia? Ah, a Silvana sempre teve um enorme ciúme do velho Itamar. Mas tudo foi resolvido quando ele conseguiu a nomeação dela para trabalhar no gabinete de outro colega, já que além de aumentar a renda familiar, ela ainda podia fiscalizar as saias mais discretamente. Sem contar que ela ainda pode se dedicar aos estudos e fazer mestrado, já que serviço quase não tinha e ele ainda a ajudava a fazer as sentenças do colega, o que revolucionou a jurisprudência na defesa do trabalhador de toda a região, quiçá de todo o país.

Mas a minha afinidade com ele se deveu mesmo à sua dedicação às causas sociais. Que coração tinha aquele homem! Que firmeza de caráter!! Era o terror dos empresários! Na defesa do trabalhador era intransigente. Quantas vezes deu sentenças pesadas, porém justas, após intermináveis audiências regadas com muitas latas de Coca Cola Diet das quais ele não largava, enviando a clara mensagem aos empresários de que eles eram parasitas dos trabalhadores e que não adiantava tentar enriquecer às custas do suor alheio!! Não sob a jurisdição do Itamar Halbmann!! Corria uma lenda de que nenhum empresário queria ter processo de ex-funcionário distribuído para ele. As pessoas exageravam quando diziam que muitas empresas e agricultores quebraram na região de Cascavel por causa de suas sentenças!! Ele fazia o que tinha de fazer, pois não dava para aceitar aquela cidade tão nova se tornando um ninho acolhedor para empresários e agropecuaristas capitalistas! E eu fazia a minha parte com a bandeira de proteção ao meio ambiente. Realmente, formamos uma grande dupla.

Nunca fui capaz de lhe agradecer o suficiente pelo tanto que ele me ajudou na defesa dos sem-terra e das invasões no oeste paranaense. Quando os companheiros sem-terra resolviam invadir uma fazenda e algum juiz dava liminar de reintegração de posse, mesmo com meus pareceres contrários, lá estava o Itamar para dar um jeito. Ele ligava para o Requião, que dava a ordem para a PM não cumprir a ordem judicial. Não foi à toa que nós dois fomos homenageados nas festas de comemoração dos 20 anos do Movimento Sem-Terra, que nascera exatamente ali, em Cascavel.

Como nos divertíamos naquele fim de mundo sem nada pra fazer!! Pelo menos uma vez por semana, nós nos reuníamos em sua casa, fumávamos charuto, bebíamos um bom whisky, facilidades que a proximidade do Paraguai nos proporcionava, e passávamos ali longas horas. Por vezes, eu tinha de ouvi-lo discorrendo sobre as maravilhas da CLT, da Carta Del Lavoro, sobre a última bibliografia que lera de seus ídolos Mussolini e Getúlio. Mas não apenas isso, também discutíamos os livros de direitos humanos do Hélio Bicudo, aquele traidor, e do Fachin, sobre a função social da posse e da propriedade. Silvana, que estudava em outro cômodo da casa, aparecia de vez em quando na porta para dar uma espiada e murmurava sonhadora: “Ah, esses jacobinos da justiça ainda vão mudar o Brasil!! Amém!!” Quando o tema era Direitos Humanos, sua especialidade, ela se juntava a nós e nos dava longas aulas. Graças a ela eu conheci Gramsci, a Escola de Frankfurt, Marcuse, Habermas, Adorno e, logicamente, o grande Ferrajoli!! Ah, Ferrajoli!! O que seria da minha vida de promotor de justiça sem Ferrajoli?! Não passaria de mais um desses promotorzinhos punitivistas!! Graças a ele eu aprendi a fazer justiça de verdade contra a sociedade burguesa! NInguém ficava preso na minha Comarca!!

Sem tudo que aprendi com o casal Halbmann, eu jamais teria conseguido estar no CNMP há tantos anos, impondo a nossa pauta progressista. Lógico que o apoio das ONGs financiadas pelo grande irmão Soros também ajudou muito. Graças a tudo isso, hoje o MP só defende os temas que nos são mais caros, ideologia de gênero, aborto, defesa de LGBTs, feminismo, racismo, abolicionismo penal. Enfim, estamos conseguindo nosso intento de destruir esse Direito burguês e opressor, que impede a liberdade e a felicidade de todos. Um grande passo foi expurgar do nosso MP os cristãos!! Começamos retirando os crucifixos dos prédios públicos e depois a limpeza foi geral!! Mas ainda há muito por fazer, pois existe uma velha guarda que se agarra a Santo Agostinho, Miguel Reale, Gilberto Callado de Oliveira, et caterva, com um discurso já desgastado de defesa das vítimas, da sociedade, um povo que antigamente tentava nos rotular de bandidólatras e democidas. Justo nós que só fizemos e fazemos o bem!!

Só uma coisa me deixou muito cismado no velório do Itamar, poucas pessoas compareceram. Para um homem que foi um grande benemérito para o Brasil e para a humanidade, esperava que houvesse uma grande multidão para lhe prestar as últimas homenagens, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, alunos e companheiros da revolução… pelo que percebi, nem seus familiares vieram de Santa Catarina!!

Ao vê-lo naquele caixão,  pensei se tudo acabou ali e dali seguiu a matéria para o buraco na terra ou para o forno… Então é isso?? Agora vivo pensando naqueles nossos rápidos encontros em que você repetia a história dos monges e finalizava com a frase: “Irmão, lembre-se da morte!!”

Que triste velório aquele de Itamar Halbmann!

Bem, mande notícias aí da terra decadente do fascista Trump. Em breve, quando o partido liberar minha saída do país, estarei aí para umas compras e espero que possamos nos encontrar.

Forte abraço do seu amigo, Toni Lenini da Silva”

 

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Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

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