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Desinformação e Holodomor

Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. George Santayana, The Life of Reason, vol. 1, 1905.

Outro dia, eu fiz uma postagem no Facebook sobre o Holodomor e coloquei ali algumas coisas que uma amiga tinha me contado sobre a vinda do avô cossaco para o Brasil. A fuga dele evitou que ele morresse assassinado pelo exército bolchevique ou de fome durante o Holodomor.

No entanto, coloquei equivocadamente que ele tinha pertencido ao exército vermelho. Passados alguns dias, minha amiga me ligou dizendo que o pai dela estava um pouco aborrecido e preocupado por eu ter escrito que o pai dele pertencera ao exército vermelho, pois na verdade, ele lutara exatamente contra o Exército Vermelho e não cairia bem na comunidade ucraniana essa informação errada. Pediu para que eu ligasse para ele para conversarmos, o que fiz imediatamente. Pedi desculpas e então ele me contou um pouco da interessante história do seu pai e da história dos cossacos.

O avô da minha amiga era da Região de Kuban, no sul da Rússia, próxima à Ucrânia (geografia na Europa é sempre uma casca de banana). Ele entrou para a academia militar durante a 1ª Guerra Mundial e, ao longo dela, participou durante anos da guerra das trincheiras, que eram as batalhas que se travavam com os soldados dentro de trincheiras de cerca de 2 metros de profundidade, sob s chuva e sob a neve.

Após o fim de 1ª Guerra, seguiram-se os conflitos da Revolução Russa e a guerra civil, que não chegaram de imediato à sua região, onde a população vivia em harmonia, onde não havia desigualdades e nem conflitos agrários. No entanto, os bolcheviques chegaram logo à região impondo uma política de racionamento de alimentação, requisição de parcela da produção e de perseguição aos “inimigos do povo”, o que não foi aceito pela população, que confrontou o exército bolchevique. Quando a situação ficou muito difícil e ele estava hospitalizado por ter se ferido pela quarta vez ao longo das guerras, o pai dele resolveu que era hora dele deixar o país para conseguir sobreviver.

O pai arrumou uma carroça carregada de verduras, legumes e feno, retirou-o do hospital, escondeu-o na carroça e saíram em direção a um porto da Turquia, de onde partiam navios da Cruz Vermelha em direção às Américas. Na hora do embarque, lembrando dos anos que passou entrincheirado na neve e sabendo do clima quente brasileiro, resolveu vir para cá.

Desembarcou em São Paulo com documentos em francês, arrumou trabalho em fazendas cafeeiras no interior de São Paulo até descobrir que no interior do Paraná havia uma colônia ucraniana. Veio para o Paraná, integrou-se à comunidade ucraniana, tornou-se professor e formou a família, que até hoje cultiva as tradições e a cultura da Ucrânia.

Ao final da conversa, o Seu Bodano me disse que seu pai amava o Brasil, dizia que aqui era o melhor lugar para se viver. Reforçou que seu pai se referia a outra época do Brasil e não aos dias de hoje em que a situação do país é lamentável. Por fim, ele me agradeceu por ter lembrado a tragédia do seu povo durante o regime soviético, uma história que ficou escondida por muito tempo pelos comunistas e que apenas agora tem se tornado conhecida em nosso país.

Confesso, humildemente e com muita vergonha, que até muito recentemente eu nunca tinha ouvido falar do genocídio ucraniano, conhecido como HOLODOMOR1. Não me lembro de tê-lo estudado na escola. Não me lembro de ter visto um filme ou um documentário sobre o assunto. Filmes e livros sobre o nazismo eu vi e li aos montes, assim como sobre o “lindo sonho” dos revolucionários russos. Eu sou mais uma vítima da desinformação.

No último dia 07 de setembro, iniciei a leitura de um livro chamado Desinformação, escrito há poucos anos por Ion Mihai Pacepa, ex-chefe do serviço de espionagem da Romênia, a Securitate. Pacepa entrou para o serviço secreto romeno aos 22 anos de idade, no início dos anos 50. Galgou degraus na carreira até se tornar o braço direito do ditador Nicolae Ceausescu. Em 1978, desertou e fugiu para os Estados Unidos, onde obteve asilo político e cidadania.

Nesse livro, Pacepa revela inúmeras técnicas de desinformação utilizadas pelos serviços secretos soviéticos, que têm por objetivo enganar o ocidente para alcançar a sua dominação. Segundo ele, desinformar (dezinformatsiya) é uma ferramenta secreta de inteligência, com a finalidade de outorgar uma chancela ocidental, não governamental, a mentiras de governo.

Por meio de desinformação, documentos são forjados, fotos são montadas, intelectuais orgânicos, simpáticos ao regime, são contratados para escrever livros, peças, filmes distorcendo fatos; órgãos de imprensa e jornalistas são corrompidos para publicar mentiras e assim manipular o imaginário ocidental. Desta forma, no último século, a história foi sendo recontada no ocidente de acordo com as conveniências e interesses do governo soviético, dos países satélites, e dos seus respectivos braços policiais, o mais popular deles a KGB, atual FSB.

No epílogo do livro, Pacepa cita o General Aleksandr Sakharovsky, chefe da comunidade de serviços de espionagem do bloco soviético: Gutta cavat lapidem, nom vi sed saepe cadendouma gota faz buraco em pedra não pela força, mas pingando constantemente. Diz Pacepa que era assim que a desinformação funcionava: gota por gota.

George Orwell, em 1984, conta do Ministério da Verdade, no qual o personagem principal Winston trabalhava. A função de Winston era exatamente recontar a história, mudar as notícias antigas, dia-a-dia, gota a gota, a fim de eliminar da memória da população os fatos que tivessem se tornado inconvenientes para o Partido e para o Grande Irmão. Basicamente, o que ontem era, hoje não é mais, e assim a história ia sendo moldada e as pessoas ludibriadas, na melhor perspectiva da dialética marxista-leninista.

Diz-se que a região da Ucrânia possuía o solo mais fértil da Europa e por isso teria sido apelidada de “O Manancial da Europa”. Por tal condição, logo após a Revolução Russa, o governo de Lênin voltou seus olhos para a região de Kuban, no sul da Rússia, e para a vizinha Ucrânia, que abrigavam o guerreiro povo Cossaco há muitos séculos.

Os Cossacos, por sua vez, eram conhecidos por sua bravura e coragem e por isso também há séculos faziam parte do exército de elite do Império Russo e gozavam de certos privilégios, tais como possuir terras e armas para a defesa da Rússia. Assim, para conseguir conquistar as férteis terras ucranianas, expandir o império socialista e alimentar os proletários, era necessário dominar a Ucrânia e a região de Kuban. Os bolcheviques então derrubaram um estatuto que beneficiava os cossacos desde o regime imperial e os catalogaram como “inimigos da classe” e “kulaks” (camponeses ricos). A partir de 1918, o Exército Vermelho passou a fazer incursões nas terras ucranianas e cossacas, com o objetivo de implantar a “descossaquização”, mas foi prontamente rechaçado por eles.

O Livro Negro do Comunismo, Crimes, Terror e Repressão conta que, em princípio, os bolcheviques tomaram medidas que aniquilavam tudo que era especificamente cossaco: as terras foram confiscadas e entregues para não cossacos; eles foram obrigadas a entregar suas armas, sob pena de morte, não obstante, estivessem de acordo com o estatuto imperial e fossem os guardiões dos confins do Império Russo, e suas assembleias e circunscrições administrativas foram dissolvidas.

Todas essas medidas faziam parte de um plano do Comitê Central do Partido Bolchevique, de 1919, que dizia o seguinte: “Em vista da experiência da guerra civil contra os cossacos, é necessário reconhecer como única medida politicamente correta é uma luta sem perdão, um terror em massa contra os ricos cossacos, que deverão ser exterminados e fisicamente liquidados até a última pessoa.”

O termo “cossaco” significa “homem livre, aventureiro ou vagabundo” em línguas turcas. Consta que os cossacos lutaram com o exército russo durante as guerras napoleônicas e que Napoleão teria dito: “Os Cossacos são as melhores tropas apeadas que existem. Se eu os tivesse no meu exército, eu conseguiria conquistar todo o mundo com elas!”. Logo, eles resistiram o exército vermelho por longo tempo.

Durante pelo menos dois anos, os ucranianos, cossacos, e os exércitos branco (monarquista ou simplesmente opositores do comunismo) e verde (formado de desertores escondidos nas florestas) lutaram e resistiram bravamente, mas perderam e foram massacrados no que ficou conhecido como Terror Vermelho. Milhares de sobreviventes foram também deportados.

Mas o castigo veio mesmo com a grande fome de 1932 a 1933, que ficou conhecida por HOLODOMOR e que foi escondida durante décadas do ocidente pelas técnicas de desinformação. Nesse período, o governo coletivizou forçadamente o campo e passou a exigir cotas cada vez maiores de produtos agrícolas, da colheita coletiva, sendo que os camponeses tentavam esconder para si parte da produção. Quanto mais fértil era a região, mais alta era a cota. Na queda de braço entre governo e camponeses que resistiam e furtavam a produção, o governo soviético decidiu que para vencer o inimigo a solução seria esfomeá-los e determinou que o plano de coleta deveria ser executado custasse o que custasse.

Resultado: nasceu a zona da fome, que cobria a totalidade da Ucrânia, uma parte das terras negras, as ricas planícies do Kuban e do Cáucaso do Norte e uma grande parte do Cazaquistão. Cerca de 40 milhões de pessoas teriam sido atingidas pela fome e pela miséria. Estima-se que tenham morrido mais de seis milhões de pessoas de fome, quatro milhões deles camponeses da Ucrânia e dois milhões na região de Kuban, mas esses números só aumentam quanto mais são revelados os segredos da URSS.

Paralelamente a essa tragédia, as autoridades soviéticas acionaram suas ferramentas e suas marionetes de desinformação. Conforme narrado no Livro Negro do Comunismo, o governo obteve “testemunhos” favoráveis, dentre eles de um deputado francês, líder do Partido Radical, Édouard Herriot, que viajou pela Ucrânia e alardeou que “havia apenas hortas nos kolkhozes admiravelmente irrigados e cultivados e colheitas decididamente admiráveis”. Aduzem os autores: “Essa cegueira era, inicialmente, o resultado de uma fantástica farsa montada pela GPU para os hóspedes estrangeiros cujo itinerário era marcado por kolkhozes e jardins de infância modelo”.

A farsa relatada acima lembra o livro de Theodore Dalrymple em Viagens aos Confins do Comunismo, no qual ele narra uma série de viagens que fez por países comunistas periféricos entre os anos de 89 e 90 e as experiências que viveu em cada um deles, tentando levantar o véu que era colocado diante dos estrangeiros para que não pudessem enxergar a duríssima realidade e a miséria de cada um daqueles povos oprimidos por governos totalitários. No Comunismo, a mentira é método.

Diz Dalrymple no prefácio a obra que “tirando os massacres, as mortes e as fomes pelas quais o comunismo foi responsável, a pior coisa do sistema era a mentira oficial, isto é, a mentira de que todos eram obrigados a participar, por repetição, por consentimento ou por não contradizê-la.”

A mentalidade revolucionária e o seu filho, o comunismo, são como um camaleão, eles se adaptam às circunstâncias, eles adotam várias faces, seus prosélitos usam maquiagem e fazem discursos comoventes e promessas de um mundo futuro e perfeito e por isso continuam vitoriosos no meio de nós. Só o resgate da memória e da história, passada de geração a geração, poderá evitar que tragédias como essas se repitam. Algumas formas atuais para nos calar são a ditadura do politicamente correto e a espiral do silêncio.

Pode parecer que o colapso do totalitarismo comunista tenha sido tão rápido, tão completo, tão definitivo, que hoje faça pouco sentido recordar como era viver nele. Porém isso seria um erro. Primeiro, os regimes comunistas foram uma experiência histórica muito dolorosa para muitos milhões de pessoas, e simplesmente esquecê-la seria acrescentar um insulto ao dano. Segundo, ainda que praticamente ninguém defenda regimes do estilo soviético como solução para os problemas do mundo (e é importante também lembrar quantos intelectuais fizeram isso enquanto o comunismo estava em sua pior fase), ainda guardamos em nós preocupantes impulsos e pendores totalitários. (…) É verdade que estamos bem longe do Gulag; mesmo assim, muitas pessoas do ocidente receiam falar aquilo em que realmente creem, tanto porque isso afetaria negativamente sua carreira, quanto porque isso lhes valeria a fama de inimigas do bem, se não do povo. A correção política insinuou-se em nossas vidas com surpreendente ligeireza e abrangência, e é bom lembrar até que ponto pode chegar a supressão da liberdade.” (Dalrymple)

Para saber um pouquinho mais sobre o Holodomor, acesse o link:

1https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1046

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Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

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