Cláudia PiovezanEleições 2018LiteraturaPolítica

Bolsonaro e Mourão – Os bobos da corte e a roupa nova do Rei.

As declarações de Jair Bolsonaro, ao longo de sua carreira política, e agora do seu candidato a vice costumam gerar enorme repercussão.

Quando analisadas dentro de seu contexto, geram uma reação positiva de grande parte dos brasileiros, o que explica o fenômeno eleitoral que se transformou a candidatura à presidência da república de um reles deputado federal carioca que, sem dinheiro, sem partido e sem apoio da imprensa, é carregado nos braços do povo por onde quer que passe.

Quando recortadas de seu contexto, jogadas na mídia e exploradas por seus adversários políticos, geram uma série de slogans patéticos, indignações histéricas e hashtags lacradoras.

Nas últimas semanas, com o candidato hospitalizado, o vice saiu a campo e de cada evento de que participa tentam retirar uma frase de efeito para atacá-los.

As mais recentes do General Mourão foram sobre as crianças criadas por mães e avós e o fim do 13º salário.

Na tragédia grega, as peças costumam ter um coro e esse coro tem como uma de suas funções principais ser a voz da razão e o senso comum, ele diz o que as personagens não podem dizer. Segundo o Prof. Antonio Medina Rodrigues, o principal tema do coro era o esfacelamento das cidades, que era o grande terror do povo grego. O coro fala de temas elevados, quando há a necessidade de uma linguagem baixa, um personagem (Corifeu) sai do coro para fazê-lo. Aristóteles considerou a importância da catarse para o público, assim, a peça deveria causar o horror e a piedade, para que os sentimentos fossem purificados1.

Coro (Édipo Rei)

Ah! Quantos males nos afligem hoje!

O povo todo foi contagiado

e já não pode a mente imaginar

recurso algum capaz de nos valer!

Não crescem mais os frutos bons da terra;

mulheres grávidas não dão à luz,

aliviando-se de suas dores;

sem pausa, como pássaros velozes,

mais rápidas que o fogo impetuoso

as vítimas se precipitam céleres

rumo à mansão do deus crepuscular.

Tebas perece com seus habitantes

e sem cuidados, sem serem chorados,

ficam no chão, aos montes, os cadáveres,

expostos, provocando novas mortes.

Esposas, mães com seus cabelos brancos,

choram junto aos altares, nos degraus

onde gemendo imploram compungidas

o fim de tão amargas provações.

E o hino triste repercute forte

ao misturar-se às vozes lamentosas.

Diante disso, filha rutilante

de Zeus supremo, outorga-nos depressa

a tua sorridente proteção!

Faze também com que Ares potente

que agora nos ataca esbravejando

e sem bronze dos escudos queima-nos

vá para longe, volte-nos as costas,

procure o leito imenso de Anfitrite

ou as revoltas vagas do mar Trácio,

pois o que a noite poupa o dia mata.”2

Na idade média, surgiu a figura do bobo da corte, que era um sujeito contratado pelos reis para entretê-los e a seu séquito. O Bobo da Corte podia até participar da mesa da corte, com o fim de divertir a nobreza, e era o único que podia criticá-la e dizer aquilo que outras pessoas não podiam dizer.

O bobo é uma figura comum nas peças de Shakespeare, sempre aparece quando o caos se instala para falar coisas aparentemente sem sentido, com ironia e língua afiada e até de forma insultuosa. Mas o que o bobo também representa é o senso comum, a voz popular e, geralmente, a voz da razão.

No Rei Lear, o bobo da corte entra em cena quando o Rei e a trama encontram-se estado caótico, como uma espécie de alter-ego, e sai de cena quando a ordem começa a se restabelecer:

Entra o Bobo.

BOBO: Vou te recompensar também; pega aí o meu barrete. (Oferece o barrete a Kent.)

LEAR: Como é que é, meu canalhinha? Estás bem?

BOBO: Meu amigo, se eu fosse o senhor aceitava o meu gorro.

KENT: Por que, Bobo?

BOBO: Por quê? Porque fica do lado de quem está em desgraça. Quem não sabe agradar segundo o vento que sopra, logo pega um resfriado. Vamos, bota o meu barrete. Vê, esse camarada aí baniu duas de suas filhas e, sem querer, fez a felicidade da terceira; se vais servi-lo, é claro que tens que usar o meu barrete. Como é, titio? – ah, se eu tivesse duas filhas e dois barretes!

LEAR:O que, meu rapaz?

BOBO: Se eu desse a elas todas as minhas posses pelo menos ficaria com os barretes. Pega aí o meu e pede o outro às tuas filhas.

LEAR: Mais cuidado, moleque – olha o chicote.

BOBO: A verdade é um cachorro que tem de ficar preso no canil. E deve ser posto fora de casa a chicotadas quando madame Cadela quer ficar calmamente fedendo junto ao fogo.

LEAR: Pestilência irritante!

BOBO: Camarada, vou te ensinar uns provérbios.

LEAR: Ensina.

BOBO: Presta atenção, titio:

Mostra menos os teus bens

No que sabes não te expandas

Empresta menos do que tens

Cavalga mais do que andas

Ouve na justa medida

Só arrisca o que não importa

Larga amantes e bebida

Tranca bem a tua porta:

E terás em cada vintena

Mais que o dobro da dezena.

KENT: Isso não é nada, Bobo.

BOBO: Então é como a voz de um advogado sem honorários – também não me deram nada pelo que falei. O senhor não sabe fazer nada com o nada, tiozinho?

LEAR:Claro que não, rapaz; do nada não sai nada.

BOBO: (A Kent .) Por favor, diz a ele que isso é tudo que lhe rendem as terras que não tem – ele não vai acreditar num Bobo.

LEAR: Um Bobo insolente.

BOBO: E tu sabes, menino, a diferença entre um bobo insolente e um bobo complacente?

LEAR: Não, rapaz; me ensina.

BOBO: Quem aconselhou a ti

A tuas terras doar

Tem que vir ficar aqui:

Ou ficas tu no lugar.

O insolente e o complacente

Surgem juntos de repente;

Um com roupas de demente;

O outro na sua frente.

LEAR : Estás me chamando de bobo, Bobo?

BOBO: Você abriu mão de todos os outros títulos; esse é de nascença.

KENT: Isso não é completamente bobo, meu senhor.

BOBO: Não, por minha fé, os senhores e os potentados não me permitiriam; não posso ter um monopólio da bobagem porque eles não abrem mão da parte deles. E as senhoras também não deixam a bobagem só pra mim: me arrastaram à força. Titio, me dá um ovo que eu te dou duas coroas.

LEAR: Que duas coroas são essas?

BOBO: Eis aqui, as duas cascas vazias,

Depois que parti o ovo ao meio

E comi o seu recheio.

Quando partiste ao meio tua coroa e doaste as duas partes, levaste o burro no

lombo através do lamaçal. Não havia nenhum juízo nessa coroa careca ou não

terias doado tua coroa de ouro. Ao dizer isto eu não falo como Bobo, mas se

alguém perceber isso deve ser chicoteado como um bobo.

Os bobos perdem o emprego

Pois os sábios vieram em bando

E como não têm juízo

Vivem nos macaqueando3.”

Pois sabem por que Bolsonaro e Mourão causam tanta indignação a uma parcela que quer manter o poder a qualquer custo?

Primeiro, porque Bolsonaro, em seus discursos parlamentares, representou a voz da população indignada com os desmandos do país e foi o único que teve coragem de dizer que o rei estava nu. Por isso, com o tempo, ele se tornou um ídolo nacional e ganhou o apelido de Mito. Ele escancarou tudo de ruim que estava sendo feito no Brasil, ele quebrou a espiral do silêncio em um país acovardado. Exatamente o que se vice tem feito em sua ausência do combate.

Segundo, porque ele é o único que tem chance real de quebrar o sistema corrupto e assassino que está matando a nossa gente, a nossa inteligência e a nossa capacidade de enxergar a realidade.

Não é óbvio que uma família desestruturada tem mais chance de ter filhos desestruturados?

O Ensaísta e psiquiatra inglês, Anthony Daniels – Theodore Dalrymple, tem tratado disso há décadas em seus ensaios. Seus livros, que ficaram escondidos do público brasileiro por muito tempo, fazem um enorme sucesso, no país, atualmente, entre aqueles que buscam um pouco de verdade fora da bolha formada por “intelectuais orgânicos” que se apoderaram da mídia e das editoras brasileiras e, por conseguinte, das mentes de cada brasileiro.

Quer maior obviedade do que os prejuízos que a enorme carga de ônus trabalhistas causam aos empresários e trabalhadores? Você prefere um emprego remunerado, pagando menos tributo ao governo e com mais dinheiro no seu bolso, ou o desemprego absoluto?

Em minha cidade, a cada dia aumentam os prédios e salas comerciais desocupados ou abandonados. Está diferente em algum lugar do Brasil?

Pois o banditismo dos políticos e dos grandes empresários e as ideias ocas de uma intelectualidade vazia e desonesta levaram o povo a buscar a voz da razão naqueles que são considerados os bufões de nossa corte.

Jair Bolsonaro e General Mourão são os nossos bobos da corte e se tornaram os únicos líderes sensatos dessa nação em frangalhos.

1http://literandoavida.blogspot.com/2009/09/funcao-do-coro-na-tragedia-grega.html

2Sófocles. A trilogia tebana. Editora Zahar, 18ª impressão. Tradução do grego de Mário da Gama Cury.

3https://sanderlei.com.br/PDF/William-Shakespeare/William-Shakespeare-O-Rei-Lear.pdf

Tags
Ver mais

Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Fechar
%d blogueiros gostam disto: