Dante Mantovani

O trem e a confiança

O trem e a confiança

Por Dante Mantovani*

 

Ano passado passei alguns dias na cidade de Viena, capital da Áustria, nas proximidades do Natal.

No dia de meu retorno ao Brasil, pegaria um voo com escala em Roma, mas antes assisti um magnífico concerto com a Orquestra Filarmônica de Viena no MusikVerein, uma das mais importantes salas de Concerto da Europa.

Ao sair da sala de concertos, corri até o metrô para tentar chegar a tempo ao aeroporto de Viena, que dista uns 25 km de onde eu estava. Na correria, notei já na entrada do trem que havia perdido meu bilhete e não havia tempo hábil para voltar à bilheteria que ficava longe dali, além de que eu estava com muuuuuita bagagem.

Expliquei a situação ao cobrador do trem, que ACREDITOU na minha história, me deixou entrar no metrô e graças a isso não perdi meu voo de volta para o Brasil, onde na manhã seguinte eu daria palestra na cidade de Ribeirão Preto-SP, para onde eu ainda teria que dirigir 500 km de carro após ter viajado 15 horas de avião.

Cheguei ao Brasil, fui a Ribeirão Preto, dei a palestra, encontrei parceiros com os quais iniciei uma série de iniciativas que têm dados bons frutos este ano, como por exemplo, a Rádio MCI (http://mci.radio.br) , um Rádio 100% online, que toca repertório musical 100% erudito. (Antes que me chamem de preconceituoso, notem que precisamos elevar os padrões, música de baixa qualidade já temos aos montes na grande mídia)

Somente ao chegar em minha casa, que fica a 400km de Ribeirão Preto, encontrei o bilhete que havia perdido na correria do retorno de Viena- estava em um compartimento recôndito da mala. Se eu tivesse perdido o avião devido à desconfiança do cobrador, hoje provavelmente não existiria a Rádio MCI, eu teria perdido meu compromisso no Brasil e teria ficado bem mais pobre do que já sou.

É por este tipo de atitude do POVO que as coisas funcionam na Áustria, as ruas são limpas, o trasporte público funciona bem, não há violência nas ruas, nem corrupção nos governos, as pessoas vivem bem e prosperamente, sem necessidade de lançar mão de malandragens e “jeitinhos”. Isso sem mencionarmos que a beleza é o critério principal para organização da cidade, do comércio e da programação cultural, a qual, aliás, é o principal atrativo da cidade, que engloba a segunda mais importante Casa de Ópera da Europa, a Ópera Estatal de Viena, que já foi dirigida por grandes gênios da História da Música, como Gustav Mahler e Richard Strauss.   Vocês conseguem imaginar alguma semelhança com o Brasil, que idolatra tipos como Caetano Veloso e Gilberto Gil?

Por aqui é quase tão certo quanto que o Sol nasce ao leste que o cobrador do metrô jamais me deixaria entrar no trem sem o bilhete, o que me faria perder o voo, o evento em Ribeirão Preto e a possibilidade de levar música de qualidade a milhares de pessoas.

Confiança, meus caros, é o que sustenta uma civilização: eis por onde precisamos começar a reconstruir o Brasil.

 

 

*Dante Mantovani é Maestro, Doutor em Linguística e colaborador do Canal Terça Livre.

 

 

 

 

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Dante Mantovani

Dante Mantovani Maestro da Orquestra Jovem de Paraguaçu Paulista, Graduado em Música, Doutor em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina, Formado em Regência Orquestral pela EFNL, da Espanha, é criador do Seminário de Música e Diretor do Festival de Música de Paraguaçu Paulista - SP desde sua fundação em 2017.

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2 Comentários

  1. Convenhamos, a relação de confiança e lealdade é uma tais interações sociais mais bonitas que se pode ver. Perceba a bela nessa atitude. Infelizmente, no Brasil, para não dizer o mundo, tem dificuldade em enxergar essa beleza.

  2. O primeiro livro indicado pelo Olavo num true outspeak que li foi “A sociedade da Confiança” (Alain Peyrefitte).
    .
    A confiança, no seu termo mais amplo, é um fundamento da sociedade. E é justamente por ser fundamental que foi uma das coisas que foram corroída por primeiro. Uma sociedade onde não há confiança, não pode haver comprometimento entre “estranhos”. Assim, o que temos é um bando de gente atomizada incapaz de se organizar para um bem comum, gente fácil de ser dominada…
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    Se não existe confiança mínima nas relações cotidiana entre estranhos, o “substitutivo” disso é o formalismo burocrático. Tudo tem que ser regulamentado, regrado, determinado por um poder central….
    .
    O que podemos ver é que o nível de desconfiança – que fomenta e “justifica” a burocracia e, consequentemente, o poder interventor do estado nas relações – não surgiu por uma série de acidentes, mas, foi CULTIVADA. Nos grandes centros, a confiança entre estranhos, INEXISTE. Nas pequenas cidades ainda temos isso, embora num grau muito menor do que já foi…

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