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O falso desapego

Doses de Cavalheirismo

Está na moda falar em desapego. Em um mundo totalmente materialista, ligado quase que exclusivamente à fruição dos sentidos e aos prazeres do hedonismo, falar em desapego virou uma espécie de demonstração de altivez espiritual, uma exibição de caráter frente à futilidade mundana. Mas existem armadilhas nessa narrativa que devem ser estudadas com cuidado.

Exercitar o desapego em si é algo benéfico, pois apegar-se não só às coisas materiais, mas também a determinadas pessoas, atitudes e sentimentos, conduz ao vício e à escravidão, acarretando uma vida depressiva e vazia. Porém, como em tudo na vida humana, existe o risco de banalizar a idéia, o que também acaba levando às mesmas consequências nefastas.

O falso desapego, chamado por Luiz Felipe Pondé de “desapego chique”, consiste em supostamente desapegar-se, porém através de meios extremamente materialistas e supérfluos. Para aderir a essa modinha, o sujeito precisa possuir determinados meios materiais que permitam que ele não perca o vínculo real com a coisa, apesar da aparente quebra desse vínculo.

O sujeito que viaja para o Nepal de primeira classe para um retiro espiritual com os monges budistas para se “desintoxicar do capitalismo selvagem” não está se desapegando de nada, só está ostentando a capacidade material de pagar caro um pacote turístico que a maior parte das pessoas não pode pagar. O sujeito que vai até a Espanha para percorrer o caminho de Santiago de Compostela e se acha espiritual ou moralmente superior à ralé que “só pensa em ganhar dinheiro” e não pensa no desenvolvimento interior, mas precisou ganhar muito dinheiro para isso, não é um desapegado, mas apenas um burguês hipócrita.

Não se trata de dizer que as pessoas não possam fazer essas viagens, se elas de facto acreditam que serão melhores que elas mesmas já são ao fazerem isso. Todos são livres para gastar o próprio dinheiro da forma que melhor entenderem. Trata-se, na verdade, de entender que isso não é desapego se você precisa dos mecanismos do próprio sistema para supostamente se desapegar dele. Pior ainda se você acredita que se tornou melhor que os outros a sua volta por conta disso.

O verdadeiro desapego exige sacrifícios. Não vou dar aqui uma receita para o desapego, pois graças ao bom Deus sou insignificante demais pra isso. Porém, posso garantir que o verdadeiro desapego exige sacrifícios, e não estou falando de sacrifícios como ficar doze horas dentro de um avião ou suar a camisa e perder alguns quilos caminhando. Estou falando de vencer os paradigmas interiores, ultrapassar as barreiras do ego, deixar pra trás pensamentos limitantes. Todos nós temos isso, e o verdadeiro desapego ocorre na calada da noite interior, no silêncio da mente resistente, no vazio do encontro consigo mesmo.

Se você acredita que vai se tornar alguém melhor, não melhor que os outros, mas melhor que sua versão anterior escalando o Himalaia, meditando com os monges ou qualquer coisa que o valha, vá em frente! Mas tenha em mente os supracitados conselhos a respeito do falso desapego e do verdadeiro desapego. Pelo bem de sua saúde mental e espiritual!

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Davi Valukas

Davi Samuel Valukas Lopes nasceu no dia 06 de setembro de 1985, na cidade de Araraquara, no interior paulista. Filho de um trombonista, começou os estudos musicais no saxofone em 1996 na Congregação Cristã no Brasil, onde toca até os dias de hoje. Tornou-se instrutor musical na mesma igreja no ano de 2002, até o ano de 2016. Estudou piano clássico por quatro anos e guitarra blues por um ano. Ministrou oficinas de musicalização de 2009 a 2012 pela Secretaria Municipal de Cultura de Araraquara. Foi um dos fundadores de um projeto de musicalização infantil na periferia da cidade, no Jd. das Hortências, chamado Família Afro Son. Trabalhou na composição e interpretação da trilha sonora de espetáculos de dança junto com outros músicos de Araraquara. Mudou-se para Uberlândia, no Triângulo Mineiro, em 2012. Na cidade, ministrou aulas de saxofone e teoria musical, tocou um ano e meio na Jazz Band Ladário Teixeira e atua desde 2016 na área de Treinamento e Educação Corporativa. Monarquista convicto, é co-fundador do Círculo Monárquico de Uberlândia. É graduado em Gestão de Recursos Humanos.

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