Eloi VeitFilosofia

O Poste

“A crise é a passagem das massas por período de soberania; massas incapazes de compreender e de conservar o que foi, incapazes de conceber e de construir o que será. A crise é uma fase intermediária entre a democracia nascente e a democracia abolida, única época da democracia realizada; segue-se-lhe o despotismo, que restabelece a ordem, a ordem dos cemitérios, cemitérios daquilo que não voltará nunca (Burckhardt) ”.

Proféticas palavras estas, ditas em 1870, e que retratam exatamente estes nossos dias. O âmbito às quais são atribuídas é o mundo ocidental inteiro. Não apenas nós brasileiros sentimos o ferro quente das loucuras das massas transformadas em zumbis, donas do poder político e soberano, a coisa é geral.

Certa feita um velho sábio viu uma turba de gentes discutindo embaixo de um poste de luz. Tratavam de uma questão menor: é que muitos insetos se aglomeravam ao redor da lâmpada e caiam nos ombros dos transeuntes, isto para alguns, era insuportável. O que fazer, era a questão discutida. Alguns sugeriam desligar a lâmpada com uma pedrada, outros usar inseticida, outros construir uma passarela coberta. O sábio começou sugerindo que se pensasse sobre a natureza da luz e sua conveniência superior a qualquer daqueles queixumes.

Ele foi enxotado dali, pois a conversa dele era por demais enfadonha e nem um pouco prática. Resolveram, ao final, derrubar o poste. E deu no que deu; ficaram sem serem atacados pelos insetos, sem o poste e sem luz. É assim que a massa decide.

Mas quando a coisa é mais complexa do que um poste de luz, no caso de se ter o poder, aquele que realmente importa, o poder do Estado? Como agem? Ora, da mesma maneira. Tudo é decidido em conselhos deliberativos; a massa decide por votação, por consenso. E através deste procedimento imaginam que estão livres das consequências que a realidade lhes imporá. E assim continua a humanidade.

E abolem-se antigas promessas e compromissos assumidos em assembleias por outras deliberações mais recentes, sem perceberem que a realidade precisa ser respeitada e, antes, conhecida.

Velhas propostas existiram e muito boas e que foram abandonadas pela massa. As grandes propostas da Idade média foram abandonadas. As magníficas propostas das Revoluções liberais francesa e inglesas. As grandes propostas do império brasileiro do século XIV. Tudo foi abandonado, todos os postes derrubados e esquecidos.

É que a massa só tem uma certeza: o futuro melhor. É ao futuro que devotam todas as suas certezas, sonhos e esperanças, e para lá fogem. Se fogem para o futuro, que não existe, é porque tem medo do passado, da grandeza do passado. Que os horroriza, pois lhes exige um compromisso de constância, paciência, prudência, fortaleza. A massa moderna é uma multidão imensa de cagôes, metidos, arrogantes e violentos.

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