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A esquerda brasileira rumo ao poder

Traduzido do jornal Le Monde, artigo de 01/10/2002, de Jean-Jacques Sévilla

Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde, traduzido por Milena Popovic

Após três derrotas consecutivas, o candidato do Partido dos Trabalhadores e antigo metalúrgico, Luís Inácio “Lula” da Silva, poderá vencer já no primeiro turno a eleição de 06 de outubro. Para esta campanha, ele modificou seu programa e suas alianças.

Uma salva de fogos de artifício crepita na noite. Para os cameramen e os fotógrafos, é a hora da multidão aguardando atenta. Após duas horas de atraso, Luís Inácio “Lula” da Silva acaba de chegar à sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, na periferia de São Paulo. Encerrado em um paletó e gravata, ele está acompanhado por sua esposa Marisa, que ostenta há pouco tempo um novo penteado ao vento.

“Brasil decente, Lula presidente”, grita a centena de simpatizantes amontoados perto da entrada do Centro de Solidariedade do Trabalhador. O candidato do Partido dos Trabalhadores e grande favorito da eleição presidencial de 06 de outubro se apressa a fazer ali uma curta parada, uma das últimas de sua campanha-maratona para o primeiro turno. “Se eu for eleito, proclama ele imediatamente, as organizações operárias não serão mais tratadas como simples figurantes, mas como verdadeiros parceiros sociais”.

Não sem alguma nostalgia, Lula prossegue com um breve lembrete histórico. É justamente nesse local que líderes sindicais, entre eles Olívio Dutra, governador em fim de mandato do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, lançaram as bases, em 1979, para a criação do Partido dos Trabalhadores (PT), em sua origem destinado a promover o advento do socialismo. É igualmente em Osasco que explodiram, no ano precedente, em pleno regime militar (1964-1985), as primeiras greves na indústria automobilística, bastião da aristocracia operária brasileira.

O orador, então presidente do sindicato dos metalúrgicos da cidade vizinha de São Bernardo do Campo, viria a se tornar rapidamente o agitador carismático, várias vezes preso e o antagonista dos generais presidentes. Após ter trazido à tona essas gloriosas lembranças, Lula se dirige a seu último encontro da noite, um showmício organizado não muito longe de lá. Um a um, três eminências do PT, a sexóloga e prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, o economista Aloísio Mercadante, que busca um mandato de senador, e o antigo guerrilheiro maoísta José Genoíno, candidato ao governo do estado de São Paulo, aquecem o público antes do evento.

PACTO DE TRANSIÇÃO

A seguir, saudado por uma formidável ovação antes de dar lugar à dupla Zezé de Camargo e Luciano, astros da música sertaneja, Lula promete “governar um país onde o povo terá recuperado seu amor-próprio”.

Nenhuma nação vai progredir implorando ao FMI”, prossegue ele, em alusão aos acordos sucessivos fechados, desde 1998, entre o governo e o órgão internacional. No entanto, com seus principais rivais, o líder histórico do PT aceitou o “pacto de transição” proposto pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, no início de setembro, com o intuito de tranquilizar os mercados financeiros em pânico ante a perspectiva de uma moratória iminente da dívida pública. Ele está disposto, portanto, em caso de vitória, a respeitar os termos do novo acordo de quinze meses fechado com o FMI, anteriormente apelidado de “ladrão do povo” pelos militantes da esquerda.

Impensável há não muito tempo, essa postura diz muito sobre a mutação do candidato Lula. Fundador de um Partido dos Trabalhadores permeado por múltiplas correntes que vão de trotskistas a social-liberais, ele hoje se divide entre sua admiração inquebrantável pelo Líder Máximo Fidel Castro e as contingências do pragmatismo político.

Particularmente, Lula, aos 56 anos, afirma em voz alta que a eleição é uma “farsa” e que é preciso passar por ela para tomar o poder. De onde, entre outras inovações dificilmente digeridas pelos radicais do partido, sua decisão de confiar a organização de sua campanha ao guru nacional do marketing político, Duda Mendonça. Este último construiu sua propalada reputação ao se colocar a serviço de Paulo Maluf, antigo prefeito e governador de São Paulo e pior encarnação da direita populista.

As três derrotas sucessivas de Lula nas eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998) – as duas últimas contra o presidente Cardoso já no primeiro turno – deixaram marcas. Nessa época, Lula pregava “a ruptura com o sistema capitalista”.

Hoje, ele faz campanha ao lado de seu companheiro de chapa e candidato à vice-presidência, José Alencar. Chefe do grupo têxtil Coteminas, empregando 16000 operários, Alencar é senador de uma modesta formação de direita, o Partido Liberal, ao qual o PT terminou por se aliar, sob a pressão de seu presidente de honra. Apesar da revolta dos radicais do partido, Lula rejeitou as coalizões de esquerda do passado. As últimas pesquisas mostram que ele está prestes a se eleger no primeiro turno.

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