Marquês de MicalbaQuinta do Micalba

BOLSONARO E O SACO DE GATOS

E: O QUE OS POLÍTICOS PRECISAM É DE UM BOM CHICOTE

Sendo o Micalba (como já disse e repeti) um otimista, há muito tempo falo que aquela história do Bolsonaro não conseguir apoio para governar era balela; bastava que a vitória se aproximasse para que o apoio aparecesse. E não só foi o que aconteceu, com o apoio começou sólido e sem fisiologismos, vindo daquilo que a mídia tradicional chama de “a bancada BBB – Boi, Bala e Bíblia”. E continuou pela eleição da segunda bancada do Congresso pelo PSL, e mais de diversos deputados e senadores de orientação direitista, ainda que abrigados em outros partidos – na sopa de letrinhas das legendas nacionais, tudo é possível.

Desde já vejo uma distinção, e falei disso ontem: o PSL deve tentar atrair para si os liberais econômicos e conservadores que se sintam pouco à vontade em suas legendas, como (sim, ela existe) a ala direitista do PSDB. Aliás, eu ousaria dizer que a maioria dos tucanos com viés claramente esquerdista pertence à Velha Guarda, ao Hard Core: Fernando Henrique, Serra, Aloísio Nunes. Quando o PSDB era o único concorrente viável do PT, muita gente boa entrou nas suas fileiras por conveniência (no bom sentido), ou simplesmente falta de opção. Trazer essas ovelhas desgarradas para o aprisco do PSL deve ser uma missão de primeira hora, bem como (conforme disse ontem) a mudança de nome e a apropriação de uma nova identidade pelo partido. Do contrário, o PSL pode se tornar o novo PRN, e sumir nas brumas da História.

Por falar nisso, encontrei num site de esquerda duas comparações entre o PSL e o PRN de Collor; a primeira (de Hilton Fernandes) com o mesmo blá-blá-blá, e a segunda, de Marco Aurélio Nogueira, indo mais perto do ponto: o PRN era fisiológico, o PSL, ideológico. As opiniões estão aqui:

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/10/12/Quais-as-semelhan%C3%A7as-entre-o-PRN-de-1990-e-o-PSL-de-2018

Dito isso, entre os novos apoiadores do Bolsonaro estão também os que apelidei de “aparentemente esquisitinhos”: gente de partidos nominalmente de esquerda, mas de ideias e plataformas conservadoras. Vou exemplificar com um que conheço literalmente desde criancinha (apesar de tê-lo visto uma única vez depois de adulto, tenho contato com a irmã dele, que morou muito tempo em Ouro Preto): o Eros Biondini, que acabou de declarar apoio ao Capitão. Ele vem de uma família extremamente decente – o pai, João Biondini, era o melhor veterinário de equinos de Minas, professor da UFMG epós graduado na Alemanha, um cara simples e trabalhador; a irmã é gerente da Caixa, e católica praticante. O Eros é  debulhador de terço como eu, e veterinário como o pai, mas desde jovem  é do que eu chamo de “ala dançante” da Igreja (a Canção Nova), e convive com as diversas alas do Catolicismo, apesar de ser da Renovação Carismática. Pois bem: apesar de filiado ao PROS, tecnicamente aliado do PT, o Eros acaba de declarar seu apoio a Bolsonaro.

Outro caso semelhante é o de Eduardo Girão, eleito Senador no Ceará também pelo PROS, e que se declarou numa entrevista a Rodrigo Constantino pró família, favorável à posse de armas, contra os jogos de azar, o aborto e a legalização das drogas. Também disse ser favorável à redução de impostos, e às privatizações.

Num país normal, durma-se com um barulho desses, e a coisa fica mais confusa quando se descobre que se por um lado o PROS milita pela redução de impostos, por outro quase se transformou no partido dos Irmãos Brothers, Cid e Ciro Gomes.

Outro exemplo do grau de loucura a que nos leva a salada partidária é a do linha dura e bem sucedido organizador de uma escola militar Capitão Styvenson Valentin, eleito Senador pelo RN pela… REDE. O Capitão já deu uma entrevista dizendo-se  disposto a trocar de partido agora que foi eleito, e algo no ar além dos aviões de carreira me diz que talvez ele migre para… bem…

Pois bem: sendo pragmático, acho que todos os três políticos devem ter o apoio reconhecido (o Capitão Styvenson ainda não se manifestou), de preferência cooptados, e, no mínimo, reconhecidos como aliados úteis nas posições que têm em comum.

E insisto: UM DOS PRIMEIROS ESFORÇOS DO NOVO PRESIDENTE DEVE SER UMA VERDADEIRA REFORMA PARTIDÁRIA, QUE ACABE COM O CIPOAL DE PARTIDOS.

Fora do Brasil, partidos que ultrapassam a adolescência (não é o nosso caso, os nossos vivem em permanente crise da puberdade) costumam abrigar um bom número de alas ou facções, ainda que unidas por um ideário mais ou menos comum. Nos EUA temos Republicanos e Democratas “de esquerda” e “de direita”, no Reino Unido, Conservadores e Trabalhistas idem.

Na verdade, o que falta aos partidos brasileiros é um bom… “Chicote”. Calma, não é mais um bolsonarista  expressando seu sadismo e truculência: no Reino Unido, o “Whip” (literalmente, “Chicote”) é um representante do partido encarregado de, com diplomacia, discrição e suavidade, conseguir unanimidade nas votações, e prevenir dissidências. O termo deriva da caça à raposa, onde o “Whip” (em grandes matilhas, os “Whippers Inn”) são encarregados de, com estalos de chicote (e nunca com chicotadas) reunir a matilha a fim de que ela persiga uma só raposa, e não se distraia com outras presas. Os “Whips” políticos (normalmente mais de um) costumam ser aqueles que se dão bem com todos, os mais dotados de tato.

Por fim, vamos aos gatos que não cabem no saco: bichanos como Roseana Sarney, raposas velhas disfarçadas de felinos do MDB e do Centrão, qualquer um da camarilha do Temer. O apoio desse povo é obviamente deletério, como o Alckmin já descobriu a duras penas. E, se não for explicitamente desvalorizado, cola.

Tags
Ver mais

Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

Artigos relacionados

Um Comentário

  1. Adorei ler essa notícia pulsante… Ja que estamos na eminência de uma mudança drastica em nosso país… Que venham, mas somente os bons, os de caráter, não mentirosos, aqueles que poderão com suas experiências e suas tendencias políticas reconstruir, e fazer do nosso país um grande e abencoado pais….

Deixe uma resposta

Ver também

Fechar
Fechar
%d blogueiros gostam disto: