Marquês de MicalbaQuinta do Micalba

EM MINAS, O BURACO É MAIS EMBAIXO

NA FOTO, MEU "ESCRITÓRIO" ENTRE 1980 E 1991

Ando vendo por aí palpites de muita gente boa sobre o insólito quadro das eleições em Minas, tanto para Senador quanto para Governador. Todos bem intencionados, mas infelizmente sem o conhecimento do Caminho do Meio – ou seja, nenhum deles é mineiro. Vou tentar explicar, já que de Minas e de buraco eu entendo – afinal, trabalhei onze anos dois mil e tantos metros debaixo da terra.

Comecemos pelo Senado. Ninguém em sã consciência votaria na Dilma, mas tem explicação. Em primeiro lugar, como dizia Guimarães Rosa, Minas são muitas – o Sul, o Oeste e o Triângulo agrícolas ou industriais (e ricos), a Zona Metalúrgica (onde nasci e morei enquanto estive por aqui), a Mata , e grosso modo, aquela enorme parte do Estado que herdamos de Pernambuco, o Norte de Minas.

Quem é de fora não vê, mas um mineiro de ouvido um pouquinho treinado situa um conterrâneo no Estado pelo sotaque em um minuto, e mesmo alguém sem muito tino distingue alguém do Sul (pelo “rrrr” caipira, comum ao interior de São Paulo e ao Paraná), o “carioca do brejo” da Zona da Mata (com os “r” aspirados e muito suaves, e um, “x” aqui e ali), o sotaque abaianado do Norte.

Vou dividir arbitrariamente os mineiros em ricos, neopobres e novíssimos pobres, para tentar explicar. Graças à agroindústrias e à agricultura comercial, e mais a pecuária, o Sul, o Oeste e o Triângulo vão muito bem, obrigado. A Zona da Mata é a neopobre: do final dos anos 80 até os 2000, ela deixou de ser em grande parte industrial para voltar à agricultura ou a mineração. Vejam a cidade da minha família, por exemplo: Cataguases era uma cidade rica e predominantemente industrial, com uma fábrica de papel, uma de algodão hidrófilo, o que foi por muitos anos a única empresa de energia elétrica não estatizada do Brasil, quatro grandes fábricas de tecidos, uma de geradores, os telefones Erickson. Além disso, era grande produtora de bauxita.

Hoje, restaram apenas a empresa de energia elétrica, uma das indústrias de tecido, e a fábrica de algodão. O lugar teve que retomar a vocação agrícola, e por razões de mercado a pecuária de leite vem sendo substituída pela de corte – o que significa o fechamento de vários laticínios. Outras cidades da região – São João Nepomuceno, Juiz de Fora, etc. – estão na mesma situação.

Os novíssimos pobres são os da Zona Metalúrgica, que no Governo Lula nadava em dinheiro, por causa do boom das commodities. As peletizadoras e minas funcionavam em três turnos, as empresas mandavam ônibus apanharem os funcionários na porta de casa. A queda do preço dos minerais fechou indústrias e paralisou os investimentos, e o desastre de Mariana deu o golpe de misericórdia. De falta de mão de obra passamos a tempos bicudíssimos.

Quanto ao Norte, sempre foi pobre e conseguiu ficar mais: nem os velhos latifúndios pecuários sobraram. O tipo de criação extensiva comum na região faliu, os jovens mais esforçados se foram, o resto está na maioria dependurado na bolsa família.

Eu sempre me dei bem na vida enquanto não subestimei a ignorância alheia. Pois bem: a popularidade de Dilma era previsível, porque aos famosos 20% do PT que elegeriam alegremente Jack o Estripador se ele usasse a estrela vermelha se juntam outros 6, 7, 8% que dependem de problemas assistenciais e que não estão nem aí para a política. E não se esqueçam de que na pesquisa de fins de julho o segundo candidato segundo as pesquisas seria o Aécio, com 15%.

É com dor no coração que dou a eleição da Dilma como favas contadas, e ponho a culpa nos outros partidos, que escolheram nulidades ou desconhecidos como concorrentes. E acho que o único jeito de evitar o pior é eleger um segundo senador decente; dar o voto a um sujeito do PHS – partido que na melhor das hipóteses é uma legenda de aluguel e na pior apoiou ostensivamente Lula em 2002, Marina em 2014 e está agora do lado do Meirelles (quem mesmo?) é fria – como dizia meu pai, trocar seis por meia dúzia. Assim, continuo com o plano de votar para Senador nos Rodrigos: o Pacheco (DEM, 250) e o Paiva (NOVO, 300). O Pacheco está (segundo a última pesquisa do Ibope) apenas dois pontos percentuais atrás do Carlos Viana, do PHS, e até pouco tempo atrás era o segundo colocado; mesmo que a pesquisa esteja certa, ainda pode virar – e ele vem crescendo nas pesquisas. Já o Rodrigo Paiva também está em curva ascendente, mas confesso que o voto será mais um desencargo de consciência.

Para Governador, ontem a Veja soltou mais uma Fake News: a manchete era “Em MG, Pimentel se aproxima de Anastasia e Dilma lidera para o Senado”. Ora, Pimentel subiu 1% (dentro da margem de erro), Anastasia caiu 2% (idem), e os votos perdidos de Anastasia foram para o candidato do NOVO (que foi de 8 para 10%).

Falar nisso, como acho que um segundo turno inevitável – e que Anastasia chegará nele mais votado – vou dar meu voto no 1º. Turno ao Romeu Zema, do NOVO. É o mais parecido que consigo fazer com um voto de Direita, dadas as circunstâncias. E faço assim não por desconhecer Anastasia e seu papel como relator do Impeachment, mas sim por conhecê-lo bem.

Como já falei, Minas é uma grande roça, e todos se conhecem – como a gente diz por aqui, “Mineiro não tem maçonaria, mas tem primo, que é melhor”. Assim, não só o Fernando Pimentel é meu “querido priminho” em 2º. Grau, como meu avô e meu pai conheceram o “Seu” Dante, o patriarca dos Anastasia, e o próprio, que é da minha idade. Essa proximidade de antigamente tinha uma vantagem (lembrem-se, o Marquês é um cavalheiro): a civilidade prevalecia sobre divergências ideológicas. Por exemplo, numa greve de professores mau pai e o Patrus Ananias se pegaram publicamente, trocando elogios como “porco imperialista” e “agente comunista”. Pouco tempo depois eu e minha irmã fomos alunos do Patrus: não só fomos os primeiros alunos da turma, como ele manteve minha irmã no mesmo cargo quando foi Prefeito (e ela fora nomeada pelo extinto PFL, hoje DEM). Posso discordar dele em praticamente tudo, mas ele é um cavalheiro.

Pois bem: pelo que sei o Anastasia é um sujeito honesto e de ambições controladas, e um administrador mediano – o que por aqui não é pouco. Mas também é definitivamente do Centro Esquerda, talvez alguns milímetros à direita das irmãs dele, a Carla e a Fátima, ambas professoras universitárias. Não sendo eu maluco, lógico que votarei nele no Segundo Turno, mas acho saudável que até lá ele entenda que parte do seu eleitorado no 2º. Turno foi de Direita, e espera uma contrapartida. Ou seja: parafraseando novamente Guimarães Rosa, ele pode perceber que votamos nele não por boniteza, mas por precisão.

 

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Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

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