Marquês de MicalbaQuinta do Micalba

OLAVO E EU

Marquês de Micalba

         Devo esclarecer desde o início: não sou Olavete. Absolutamente nada contra, é só uma questão de idade, e de outros terem chegado antes dele. Meu conservadorismo – meio tory – nasceu em Cambridge em mil-novecentos-e-oitenta-e-não-é-da-sua-conta (tá bem, 1982), lendo Isaiah Berlin, Burke, Bentham, e Scruton, na época uma novidade – The Meaning of Conservatism estava na primeira edição em brochura (ainda tenho o meu, que é gastronômico: tem manchas de ketchup, brown sauce, molho inglês, cerveja, chá e sabe-se lá o que mais). E virei conservador meio que por instinto – no Brasil de então não se falava em ideologia conservadora, e o máximo que se podia esperar era que hegelianamente os intelectuais substituíssem o proletariado na Sociedade Perfeita. E também porque meus amigos mais chegados em Cambridge eram filhos e netos de verdadeiros proletários, blue collars – no caso deles, black collars seria melhor, eram descendentes de antigos mineiros – e portanto thatcheristas militantes. Socialismo era para os filhos de Lordes, que faziam Humanas.

Mas voltemos ao Olavo. Conheci-o pelo You Tube, aí por 2012, 2013. Achei-o um velhote divertido, meio maluco, desbocado (às vezes ainda tenho vontade de lavar a boca dele com sabão; meu avô – e meu mentor – mal dizia la parole de Cambronne quando muito irritado), e, antes de mais nada, um veículo que ensinava à moçada coisas que os brasileiros desconheciam – liberalismo clássico, filosofia idem. Aos poucos nasceu uma profunda admiração, especialmente depois de ler o que ele escreveu.

Dos proverbiais seis graus de separação, não temos senão um: pelo que ele mesmo disse, o Olavo foi colega de redação do meu tio Luís Antônio Villas Boas Corrêa. E padeci da mesma horrível doença do que ele: eu também tive Lyme, apanhada ali mesmo na Virginia, em Manassas. A diferença é que a minha só foi diagnosticada quando eu estava pela bola sete, com o coração seriamente comprometido e os rins meio bichados. Também moramos na roça, e somos irmãos em Santo Huberto, embora eu – por cortesia profissional e mais nada – não persiga predadores. E, falar nisso, somos fãs do mesmo livro lido na infância/juventude: O Caçador, de John Hunter. E ontem descobri num vídeo dele que temos praticamente o mesmo QI – eu sou um ponto mais burro.

(Para dar inveja ao Olavo, em 1994 eu tomei o café da manhã com o filho do John Hunter: na cara de pau, bati na casa dele perto de Nairobi, apresentei-me e fui convidado para o breakfast dominical, que na África ainda é uma coisa meio vitoriana.)

O Olavo deve ser chamado de Professor? Eu sempre fui avesso a títulos: de respeito eu gosto, “Senhor” é sempre bem vindo, mas aos 57 o que mais gosto é quando uma mulher me chama de “moço”, seja ele velha ou nova, bonita ou feia. Enquanto promotor, odiava particularmente o “doutor”: não sou médico, nem fiz doutorado. Mas acho “professor” um dos poucos títulos realmente respeitosos, independente do meio acadêmico: desde que a gente ensine alguma habilidade que sabe a outrem, viramos professores. Dentre os professores mais importantes que eu tive estavam os que me ensinaram a atirar e a montar, coisas que consegui passar a outros, e a Dona Íris do 4º. Ano Primário, e a Dona Márcia do 2º. (no caso dela meu julgamento é meio turvo, eu era perdidamente apaixonado por ela, só não deu certo porque ela tinha dezenove anos e eu seis). Então o Olavo é Professor sim – com “P” maiúsculo.

E não, minha admiração pelo Olavo é meramente platônica, ele é o que espero ser em alguns anos – se chegar vivo lá. E ofereço a ele uma coisa, de graça: sou oficialmente um Mestre (M. Sc.), e por cortesia um Professor, com sotaque, revalidado, e tudo (o MEC me fez cursar Metodologia em Londrina com a Dona Jezebel – o Bernardo Küster deve saber quem se esconde por trás da alcunha  – porque deve ter julgado que o King’s College tinha um nível meio baixo). Pois bem: ofereço a ele meu título, reconhecido e tudo, já que não estou usando, mesmo. Se ele fizer questão de pagar, me manda um daqueles presuntos aí da Virgínia, feitos por descendentes de alemães com porcos alimentados com amendoim; são quase iguais a um porco preto português ou pata negra espanhol. Só acreditei depois de provar.

Quando o Olavo levou um balão do Facebook muita gente se lamentou, mas eu me regojizei: entre 2013 e 2016 o Olavo era além das aulas do COF (nome perfeito para um fumante, falta só mais um “F” e a onomatopéia está acabada) um instrumento de mudança. Compreensivelmente cansado, abandonou os hangouts para se ater ao seu métier – mas ainda precisamos dele. Foi bom vê-lo de volta aos vídeos, nova e ativamente engajado. Águias foram feitas para voar alto.

Sintetizando, minha atitude para com o Olavo é mais ou menos a mesma do Pondé: extrema admiração, relativo alinhamento. Minha formação científica (todo Geólogo é um pouco evolucionista, e aí temos no que divergir) me impede de concordar com ele quando o assunto é Ciência, e minha doutrinação tory me deixa meio surpreso com o fato dos alunos dele ignorarem nomes como Isaiah Berlin (antes de mais nada um Humanista, apesar de ter admirado Keynes), Michael Oakeshott, George Steiner (OK, meio esquerdinha, mas um Humanista muito, muito inteligente) e Kwasi Kwarteng, dentre os novos. Ah, e numa coisa Olavo NÃO TEM razão: “quem tem c… tem medo” não é um ditado mineiro, é uma citação de Bocage; já falei disto aqui.

Mas posso deixar uma certeza: ninguém jamais impactou o Brasil tanto em tão pouco tempo. Olavo é um gigante entre pigmeus, e a imensa maioria de comentaristas conservadores sérios de hoje em dia sofreu uma grande influência dele. O único outro comentarista conservador sério que conheço no Brasil que admite não ter sido influenciado por ele (mas que se confessou um admirador) é o Pondé.

Numa coisa o Olavo está muito mal aproveitado: por mim, ele deveria parar de caçar ursos e ir caçar perus (nos EUA) ou macucos e inambus no Brasil – ele daria um soberbo caçador de pio. Explico: o caçador de pio é um provocador que se aproveita da agressividade da presa para fazê-la sair do mato, e ir para o campo aberto. Quando o Velho Mestre começou a atacar certas figuras “Conservadoras de Direita” eu me insurgi – para que espalhar cizânia entre os “aliados”? Mas depois vi personagens como Reinaldo Azevedo e Marco Antônio Villa saírem na clareira, e mostrarem suas verdadeiras cores (horrorosas, ambas) depois de chamados no pio, e tive de concluir: Olavo Tem Razão. (Nunca levei a sério personas como o Karnal ou o Cortella, philosophes de auto ajuda, tipos de Paulo Coelho titulados).

Outra implicância minha que se desfez quando o conheci realmente: eu achava que ele era aquele sujeito que ia dormir imaginando um Comunista debaixo da cama – como no caso do PSDB. Para mim, o PSDB era um partido que nasceu no centro esquerda, mas que evoluiu  para a centro direita – e por algum tempo os ataques dele me pareceram injustos. Quando o Alckmin (e FHC) mostraram suas verdadeiras caras, é de se reconhecer: Olavo Tinha Razão outra vez. Olavo não é o sujeito que idealizou um Comunista embaixo da cama: é o que arrastou a cama e mostrou o Comunista debaixo dela.

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Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

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