Marquês de MicalbaQuinta do Micalba

OS CARROCEIROS CONTRA O UBER

A FOLHA DE SÃO PAULO E O TERÇA LIVRE

Ontem a FOLHA DE SÃO PAULO chamou o TERÇA LIVRE de “site obscuro”. Conforme comentei lá, a Folha tem (dados dela) uma tiragem de 292.331 exemplares, entre virtuais e impressos. O Terça Livre tinha ontem 466 mil inscritos – hoje tem 468 mil, num espaço de tempo em que duvido que a Folha tenha conseguido cem novos assinantes. Atém disso, o Terça foi um grande influenciador nas últimas eleições, ajudando na eleição de pelo menos sete candidatos pelo Brasil – e só estou me lembrando dos óbvios.

Aos cinquenta e sete anos, vi poucas revoluções tecnológicas reais – a maioria das “maravilhas tecnológicas” de hoje em dia não passa de um longo e gradual desenvolvimento de invenções do início do Século XX, o que fez alguns cientistas chamarem os últimos cem anos de “Século Perdido” em matéria de inovações. Mas sem dúvida a mídia mudou imensamente nos últimos dez anos, e ninguém entendeu tão pouco as mudanças quanto a mídia em si.

Eu nasci numa família de jornalistas: meu avô foi repórter e articulista nos tempos da faculdade, e publicou n’O Dia, n’A Noite, n’O Malho e n’A Careta; meu tio Luís Antônio Villas Boas Corrêa foi editor do Estadão e do Jornal do Brasil, assim como o filho dele, meu primo Marcos de Sá Corrêa, que também editou a Veja e, antes do AVC, a Piauí (pois é, a família tem um lado vermelhinho; qual não tem?). Eu mesmo publiquei por alguns anos em jornais de Minas e do Paraná, Nas longas estadas na casa do meu tio no Rio de Janeiro, me acostumei a ver três, quatro jornais na mesa do café – pelo menos o JB, O Globo, o Estadão e a Folha, e mais o Jornal dos Sports uma vez por semana. Na minha casa em BH assinavam o Estado de Minas meu pai e meu avô, que morava ao lado, e mais o JB; a mesma coisa faziam meus parentes em Cataguases, que como mineirocas preferiam receber simultaneamente O Globo e o JB. Cresci discutindo e entendendo conceitos arcanos como lead, diagramação, formato, pauta, furo.

Hoje quem ainda assina jornal na minha família (só um e olhe lá) tem algo em comum: mais de sessenta anos. O fato, aliás, já foi comentado por alguém do Spectator (acho que foi o Charles Moore, mas já faz algum tempo que a matéria foi publicada e o registro sumiu do meu Kindle): se alguém tem um jornal nas mãos, também tem cabelos brancos – ou pintados. No Reino Unido os únicos dois jornais da chamada “grande imprensa” ainda com tiragens significativas são dois “jornais de velhos”: o Telegraph (conservador, 345.346, o mais vendido dos jornais tradicionais) e o vetusto The Times (centro-direita, 445.358). O esquerdinha Guardian hoje tem meros 137.839; dos três, o único ainda no tradicional “formatão” é o Telegraph; o Guardian virou tablóide. (Atenção: ao contrário da Foice enferrujada, nesta conta não entram os assinantes eletrônicos).

Aliás, uma coisa que a imprensa brasileira tinha que ter aprendido com os britânicos: conservadores hoje lêem bem mais do que esquerdistas. O Spectator atingiu este ano o recorde histórico de 73.328 exemplares impressos, mais do dobro do seu  concorrente vermelhinho, o New Stesman. Aliás, se colocarmos na conta os 16 jornais mais vendidos do Reino Unido em qualquer formato (tradicional, Berliner, tablóide) teremos a impressionante cifra de 5.057.947 exemplares impressos por dia de jornais conservadores e de centro direita (The Sun , Daily Mail London Evening Standard, The Times, The Daily Telegraph, Daily Express, City A.M.), 2.336.903 para os isentões, meramente sensacionalistas, pró União Europeia, globalistas e centro esquerda (Metro, Daily Star, Financial Times, I, The New European), e 855.118 para a esquerda tradicional (Daily Mirror, The Guardian, Daily Record). Ou seja: retirados da conta os tablóides sem posições políticas e mais preocupados em saber se o Príncipe Harry tem chatos e a Meghan Markle mau hálito (Metro, Daily Star), temos 469.533 centristas e isentões, que subtraídos aos isentões e com o resto somado aos esquerdistas perfazem 1.324.651 – mais ou menos 1/3 dos leitores.

Recentemente a Foice divulgou duas pesquisas, mas aparentemente não aprendeu nada com isso: a maioria dos seus leitores se define como conservadora, mas o staff sew declara abertamente esquerdista. Para alguém com o mínimo senso de marketing, é como se a revista “Churrasco no Capricho” fosse redigida e dirigida por veganos radicais, mas aparentemente a “Fôia” não vê nada de errado nisso. Afinal, o Sakamoto e seus colegas kamikazes não se sentem como empregados de uma mera empresa de imprensa capitalista que depende para a sua sobrevivência de assinantes, anunciantes e consumidores por impulso: enquanto o financiamento governamental da esquerda chover, tudo estará bem no melhor dos mundos possíveis,

Pessoalmente, reconheço que parei de assinar e ler a Foice por causa das tirinhas, depois que li uma pesquisa que dizia que aqueles que começam a leitura dos jornais no banheiro e pelas tirinhas viviam mais. Gosto de começar meu dia com um sorriso; quando o Níquel Náusea sumiu, o (a? x? y? w? z?) Laerte reapareceu, e mais quejandos, desisti. Não me arrependo nem um pouco.

Mas até aqui estamos falando da imprensa escrita, e a grande revolução nos últimos tempos ocorreu na televisiva – com a ressurreição do rádio como fenômeno paralelo. E olha que eu tive a ocasião de ter uma epifania, mas não aproveitei.

Eu estava passando meus três dias tradicionais em Londres na volta da Irlanda antes de embarcar para o Brasil, quando assisti num hotel particularmente sujinho e esquisito um documentário sobre TV na antiga URSS. A novidade naquele tempo era que com o fim e a decadência dos únicos canais estatais (o principal apelidado Ostankino, salvo engano), pipocaram nos grandes condomínios russos as “TVs locais”. Funcionava assim: no vácuo de poder, os grandes condomínios habitacionais de Moscou e outras grandes cidades descobriram que uma única antena distribuía a imagem da TV estatal  para todos os habitantes. Aproveitando-se disso, empreendedores locais se aproveitaram para usar a antena do condomínio para transmitir outro canal, o deles – mediante uma pequena taxa, uma espécie de TV a cabo muito regional. Transmitindo filmes pirateados de VHS entremeados de noticiários retirados de rádios livres (a BBC, por exemplo) e notícias locais (“Dona Petrovna do 418 do Bloco II, Torre J, acabou de ser mãe do pequeno Ivan, que nasceu com 3 quilos e setecentos”). Estes precursores do You Tube duraram até o governo russo permitir as TVs a cabo e por satélite, mas foram pioneiros importantes – ainda que na época eu tenha ignorado totalmente o potencial deles pioneiros, e os considerado uma curiosidade local.

Sim, posteriormente o You Tube começou como uma brincadeira, mas logo atraiu profissionais, ainda que por vocação, e agrupou em torno de alguns canais – com meio milhão ou alguns milhões de seguidores – gente de todas as ideologias, mas principalmente as que mais apavoram o outro lado. Mesmo com o You Tube censurando discretamente (por enquanto, pelo menos) e diminuindo a remuneração dos dissidentes do mainstream, o marketing pessoal dos YouTubers e as doações de admiradores tem compensado isso, e estou certo de que se a perseguição aumentar outro canal surgirá – na Rede, tudo o que é sólido se desmancha no ar. O Terça Livre, o Nando Moura, o Brasil Paralelo e tantos outros são a prova.

E, para terminar, frenético, deixo o pessoal da Foice com a letra de um clássico dos anos 80:

“Eu sou da idade do espaço, meu bem

Você é da idade da pedra

Nasci pra ser um beija-flor, meu amor

E você é sempre a lesma lerda

É sempre a lesma lerda

É sempre a lesma lerda, “

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Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

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