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RÉQUIEM PARA UMA MEMÓRIA INCENDIADA

OU O CASTELO DO LEAHY

Marquês de Micalba

 

Ontem arderam não apenas 200 e poucos (e fundamentais) anos da História do Brasil, mas também uns 2 mil anos da História da Humanidade – as múmias trazidas por D. Pedro II, e mais as antiguidades que ele cuidadosamente colecionou. Da Luzia nem falo, há uma (vaga) chance dela ter sobrevivido). Uma boa e querida amiga me confidenciou que elas a tinham impressionado mais do que as do British Museum – e concordo. Mas arderam aqui na Botocúndia sem choro nem vela; o povo anda mais preocupado com uma, pelo que sei, fictícia nova greve dos caminhoneiros, apesar de que no distrito onde vivo os estoques de combustível acabaram, e o preço foi às alturas.

Um sujeito que usa como pseudônimo “Marquês de Micalba” é, obviamente, um Monarquista – e um otimista, já que “Micalba” é uma corruptela inventada de “Micawber”, aquele personagem de Dickens que sempre acreditava que o melhor sempre está por vir. Um monarquista moderado, meio de esquerda, que acha que hoje não existe mais lugar para Poder Moderador, no máximo um poder excepcional de veto: mas monarquista mesmo assim.

E eu sou mesmo um otimista: ontem, no calor da hora, imaginei que o incêndio pudesse ter sido uma falha da engenharia de segurança ou do engenheiro eletricista, e, como engenheiro, critiquei estes supostos profissionais. Bem, eles não só nunca existiram, como sequer havia uma simples brigada de incêndio, muito menos equipamento. Só uma penúria e um descaso grotescos, a absoluta falta de tudo

Sumiram na fumaça os afrescos de Debret, os traços de Pézerat (um engenheiro militar com gênio de arquiteto, que já estudei num esboço de livro), e tudo que estava dentro – com um orgulho meio masoquista, gente que nunca foi lá se compraz em descrever o que jamais irá contemplar. Quem é o culpado? Os bodes expiatórios começam a aparecer, e mesmo a minha esquerdista de estimação (sim, eu tenho uma, e sou o direitista de estimação dela) me mandou um whatsapp reproduzindo o que outros já disseram: que a cúpula da UFRJ é toda do PSOL, do PC do B e do PCB, que milhões foram gastos em obras de “arte” de gosto mais do que discutível ou francamente ofensivas, etc.

Não vou formular nenhuma teoria da conspiração, nem por hipótese. Mas vou contar um fato concreto: por dez anos na década de 90, fui cavalgar na Irlanda quase todos os janeiros, em Loughrea, na fazenda do William Leahy, de quem eu alugava os cavalos, e que depois virou meu amigo. O Leahy (cutuquei o Google e folguei e saber que ele ainda vive, deve andar beirando os 80) é um sujeito duro feito um carvalho irlandês, que com o auxílio dos seis filhos construiu um pequeno império rural, vindo do nada – o pai dele era um pequeno meeiro, que depois da independência irlandesa conseguiu comprar um pedacinho de terra.

Pois bem: lá por 1998 o Willie conseguiu comprar a Manor House (um verdadeiro castelo) do antigo Lorde que era o senhorio do pai dele, e transformou parte dos jardins (que eram magtníficos) numa pista de cross country. A casa era magnífica, mas estava em ruínas, e como em Loughrea a hospedagem era escassa, sugeri ao Leahy que reformasse o lugar: viraria um hotel para os cavaleiros, que eram muitos e vinham do mundo todo. Ele sorriu e me disse:

– Olhe, eu adoro ver isso vir abaixo aos poucos.

Dava para entender: católicos como ele passaram o diabo no tempo dos ingleses, proibidos de terem terras, sujeitos aos senhores de terras protestantes.

E o que o Museu Nacional tem a ver com isso? Simples: um marco e um símbolo do tempo do Império cuidado por pessoas filiadas a partidos que consideram a História Imperial uma excrescência e uma herança maldita pode até não ser colocar a raposa tomando conta do galinheiro, mas certamente equivale no mínimo a colocar tomando conta do rebanho um cão narcoléptico. Nem que seja para ver cair aos poucos, como o Leahy queria. Simplesmente, não é prioridade.

E me lembrei de outra coisa: sempre que vou a Lisboa (quase todos os anos) passo pelo menos duas tardes no Museu das Janelas Verdes, oficialmente o Museu de Arte Antiga de Lisboa. O lugar não faz parte do roteiro daquele tipo de “brazileiros” que adoram curtir uma fila no Louvre para entrar, fazer comentários ridículos e não entender nada do que viram, mas tem um ótimo acervo: todos os Grandes Mestres que podem ser encontrados em qualquer outro museu europeu, e mais três peças excepcionais – o tríptico das Tentações de Santo Antão de Bosch, a Sala dos Biombos e o Saltério do Gil Vicente. Mas o que eu mais gosto lá são outras coisas: 1) Você pode sair pelos fundos sem burocracia, pitar seu cigarrinho e voltar. 2) Adoro ver nas peças – umas obviamente caríssimas – a inscrição  “Doado pela Família Tal”. 3) Os sorvetes do barzinho do outro lado da rua são uma delícia, com o sabor de doces conventuais (são meio industrializados, mas de uma fábrica pequena) , e também te deixam sair pela frente, tomar um sorvete e voltar. 4) O Staff já me conhece, mesmo das raras visitas (talvez por ser o gajo que vem dois dias no ano, fala pelos cotovelos, passa a tarde inteira, e sai para fumar e tomar sorvete). Ano atrasado dei de cara na porta na Sala dos Biombos, e fiz um ar de decepcionado; uma atendente me reconheceu, explicou que estavam encerando o chão, abriu a porta e me deixou entrar – com a condição que eu não me esborrachasse.

O que tem isso de diferente dos museus brasileiros? TUDO. Mas a resposta principal está nos itens  2 e 4 – nosso mecenato é inexistente, a não ser para o que os nossos irmãos d’além mar chamam “parvoíces”. E porque a casa, afinal de contas, é minha, e não do Governo. Se quiserem, volto ao assunto.

Da última vez que fui ao Aeroporto de Confins reparei que o avião da TAP estava com uma linda pintura vintage, fundo branco com “TRANSPORTES AÉREOS PORTUGUESES” em vermelho. Depois desta, não vejo a hora de comprar uma passagem só de ida.

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Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

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