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Bolsonaro e a tesoura quebrada

Eleições 2018

Durante duas décadas, PT e PSDB protagonizaram um teatro político chamado “estratégia das tesouras”, que consiste em um revezamento de poder entre duas forças de ideologias afins mas ligeiramente diferentes, criando uma falsa sensação de pluralidade democrática. Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff, Aécio Neves, José Serra. Todos esquerdistas envolvidos de alguma forma com a luta anti-regime militar, seja em sindicatos, guerrilhas ou universidades, mas agora jurando oposição ferrenha.

Para quem acompanhou o processo eleitoral desde 1989, esse teatro talvez não ficasse tão claro durante o processo, mas fica claro à medida que analisamos os factos com a devida distância temporal. Quando FHC se candidatou à presidência da República, em 1994, o plano real que acabara que ajudar a criar como Ministro da Fazenda de Itamar Franco fê-lo presidente, acabando com o dragão da inflação que tanto aterrorizava o povo brasileiro desde a década de 80. Com a estabilidade da moeda, houve a estabilização econômica que possibilitou a implantação da social-democracia tucana, calcada em um aparentemente ambíguo projeto que previa ao mesmo tempo a privatização de estatais e o aumento de projetos assistencialistas.

Quando FHC passou a faixa presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva, em primeiro de janeiro de 2003 (com um caloroso abraço de antigos companheiros, diga-se de passagem), estava pavimentado o caminho para que o petismo viesse a dominar o cenário político nacional por uma década e meia, até a queda de Dilma Rousseff. Cabe lembrar que FHC sempre foi um dos defensores de Lula quando estourou o escândalo do mensalão, em 2005. Ao mesmo tempo que o partido de Fernando Henrique fingia oposição no Congresso Nacional, ele cumpria o papel, como líder supremo do partido, de apaziguar os ânimos e manter o status quo do sapo barbudo. A “oposição” tucana sempre foi a oposição dos sonhos de qualquer partido situacionista do mundo, ou seja, uma branda oposição para inglês ver (e rir).

Antes de prosseguirmos, faz-se necessário explicar o conceito de estamento burocrático: a teoria marxista tradicional aposta na luta de classes como motor da história, ou seja, os fenômenos políticos surgiriam através do choque entre a classe trabalhadora e a classe dominante. Porém, o sociólogo Raimundo Faoro interpretou a teoria marxista no Brasil com um viés bem peculiar. Segundo ele, aqui não ocorre a luta de classes como no modelo marxista, mas entre o povo (composto por todas as classes sociais e profissionais) e o estamento burocrático, que vem a ser uma determinada elite que se apossa do Estado em benefício próprio, ou seja, de modo parasitário. Posto isto, sigamos.

Quando Jair Bolsonaro despontou como alternativa de combate do povo brasileiro ao estamento burocrático, muitos “analistas” não acreditavam no potencial da candidatura. Julgavam pelo prisma tradicional do presidencialismo de coalizão de que ele não teria apoio político para prosseguir com sucesso, já que sempre foi um parlamentar do baixo clero sem apoio dos colegas para aprovar seus projetos. O que tais analistas não foram capazes de prever é que Bolsonaro teria ampla adesão popular em diversas camadas sociais, desde militares e religiosos a jovens e trabalhadores comuns. A reação do sistema era inevitável. Era hora de quebrar a tesoura.

Uma prova da força que a candidatura Bolsonaro-Mourão obteve junto ao povo brasileiro está no chamado centrão, junção de diversos nomes do estamento burocrático em torno de Geraldo Alckmin, vulgo picolé de chuchu. Tal aliança, que reúne o que há de mais podre na política brasileira, tem a clara missão de salvar o pescoço do já combalido estamento burocrático. Ou eles salvam o sistema ou um processo irreversível de degola do sistema terá início em primeiro de janeiro de 2019.

Além da aliança do centrão, temos outros factos que demonstram o desespero do sistema em manter-se vivo. Ciro Gomes, velho conhecido da esquerda brasileira, só não se tornou o candidato mais forte do lado de lá por conta da vaidade de Lula, que não aceitou perder o protagonismo de Salvador da esquerda e emplacou a mais cafona novela política da história desse país, tendo Fernando Haddad como uma espécie de bobo da corte de luxo. Mas talvez a estratégia de Lula não seja tão louca assim. Como as pesquisas apontam que Alckmin e o plano A do centrão provavelmente não obtenham êxito no primeiro turno, FHC já declarou que apóia Haddad no segundo turno para barrar Bolsonaro. Quebra-se de vez a estratégia das tesouras, vil teatro que vigorou por duas décadas e agora mostra ao povo brasileiro, caídas as máscaras ideológicas, quem deseja reerguer o país e quem deseja manter o sistema vivo, o mesmo sistema que se alimenta do sangue, do suor e das lágrimas do cidadão que é diariamente espoliado pelo Estado através do roubo institucionalizado que eufemisticamente chamamos de impostos.

Em suma, durante duas décadas o mesmo monstro governou esse país, hora pintando a cara de vermelho, hora vestindo uma máscara amarela e azul com bico avantajado. Durante esse tempo, o povo brasileiro foi ludibriado e acreditou viver em uma democracia saudável. Desfeita a farsa, temos a chance de desferir um belo golpe nessa corja no dia 7 de outubro elegendo Jair Bolsonaro, o homem que foi capaz de fazer FHC quebrar os próprios protocolos e confessar publicamente a farsa das tesouras.

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Davi Valukas

Davi Samuel Valukas Lopes nasceu no dia 06 de setembro de 1985, na cidade de Araraquara, no interior paulista. Filho de um trombonista, começou os estudos musicais no saxofone em 1996 na Congregação Cristã no Brasil, onde toca até os dias de hoje. Tornou-se instrutor musical na mesma igreja no ano de 2002, até o ano de 2016. Estudou piano clássico por quatro anos e guitarra blues por um ano. Ministrou oficinas de musicalização de 2009 a 2012 pela Secretaria Municipal de Cultura de Araraquara. Foi um dos fundadores de um projeto de musicalização infantil na periferia da cidade, no Jd. das Hortências, chamado Família Afro Son. Trabalhou na composição e interpretação da trilha sonora de espetáculos de dança junto com outros músicos de Araraquara. Mudou-se para Uberlândia, no Triângulo Mineiro, em 2012. Na cidade, ministrou aulas de saxofone e teoria musical, tocou um ano e meio na Jazz Band Ladário Teixeira e atua desde 2016 na área de Treinamento e Educação Corporativa. Monarquista convicto, é co-fundador do Círculo Monárquico de Uberlândia. É graduado em Gestão de Recursos Humanos.

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