Marquês de MicalbaPolíticaQuinta do Micalba

A URNA COM ALZHEIMER

Marquês de Micalba

Acreditem, de urna eletrônica eu entendo. Além de advogado, meu pai Roberto Lima Antunes de Siqueira era funcionário primeiro do TRE-MG e depois do TSE e do TJMG, tendo sido Diretor Geral (TRE-MG e TSE) e Diretor de Informática (para conferir, basta dar um Google e juntar “urna eletrônica”, ele já se foi faz tempo, mas ainda encontrei algumas coisas). E um apaixonado por novidades: nos anos 70 importou por uma nota (uns 1.500 dólares) uma das primeiras secretárias eletrônicas – um trambolho enorme -, e ficou furioso quando os capiaus faziam piadas com a voz sexy do aparelho inédito nas Alterosas, porque a voz era da minha mãe.

Nos anos seguintes a coisa continuou: tivemos uma das primeiras Tvs a cores, em dos primeiros videocassetes, e quando acabei meu Mestrado ele me pediu para trazer da Inglaterra um dos primeiros computadores pessoais, uma coisa se não me engano chamado T-82, que não passava de um teclado minúsculo que era acoplado a uma TV preta e branca e um gravador dos de fita cassete. Eu enjoei logo da brincadeira, mas ele passava horas diante da tela, explorando o treco ao máximo.

Até ele morrer eu nunca comprei um computador, exceto um notebook, porque ele sempre tinha um do último modelo e me passava quando o próximo saía – e eu só fui usar para valer computadores no final dos anos 80, até fiz informática na Universidade e no Mestrado, mas na época era uma coisa tão hermética e chata que eu tinha mais orgulho de saber usar uma régua de cálculo, ou a minha fiel HP 49C.

Mas mesmo antes disso meu pai já era fascinado pela possibilidade de se usar a mecânica e a eletrônica, e depois a informática em apuração e registro de eleitores. Como convidado do Carter Center, ele foi Observador Internacional em diversas eleições, incluindo uma do Ronald Reagan e uma da Margareth Thatcher, e mais outras por aí. Voltou dos EUA e da Inglaterra admirado com a votação eletrônica localizada, e com o auxílio dos computadores na apuração.

Antes disso (eu acho, só conto com a memória) ele e um Professor de São Paulo criaram nos ano70 uma máquina mecânica que funcionava como uma daquelas perfuradoras manuais de cartões de lotaria esportiva (quem tem mais de 50 se lembra), e um gatilho que jogava o carão perfurado na urna, que era uma espécie de caixa de acrílico. Foram à Hebe Camargo, e mais a um programa popular de televisão – não me lembro qual. Depois disso, por anos a fio a geringonça ficou guardada no alto do armário do meu quarto. Repito: de urna eletrônica eu entendo, dormi com uma durante anos.

Resumindo a ópera, papai foi um dos pioneiros na apuração e da votação eletrônica no Brasil, e Diretor Geral do TSE na primeira eleição em que ela foi usada – a do Collor, em 1990. Ele não foi o inventor da urna – ninguém foi, foi um esforço de equipe bastante disperso, lembro-me particularmente do trabalho do Chico Brício da PRODEMGE, do Alvarez do SERPRO, de um Juiz de Brusque-SC, Carlos Prudêncio, e do pessoal da COBRA em Jacarepaguá – além de outros.

Bem, e o que isso importa? DUVIDO que hoje em dia meu pai tivesse a confiança cega nas urnas eletrônicas que o pessoal do TSE e do STF demonstram, com a PGR – que deveria desconfiar ao invés de se fazer do burrinho de presépio que a Poliana adotou como animal de estimação –achando o mesmo.

Sim, porque mais do que eu – que nasci em Minas, mas morei muito tempo fora, quase a metade da minha vida – papai era Mineiro com “M” maiúsculo. O avô tcheco da Boêmia e as avós portuguesas só acentuavam isto nele: era sóbrio, frugal, economizava, e, principalmente, DESCONFIAVA. Eu puxei ao lado mais liberal nos costumes do lado materno, mineiroca/carioca/francês (mas sem exageros, somos reaças moderados), mas sempre admirei nele a praticidade, o jogo de xadrez mental do cotidiano, o “quando a esmola é demais o Santo desconfia”. Dando um exemplo concreto: fui a Angola como prospector de jazidas em 1985, ele como observador eleitoral em 85 ou 86. Ambos éramos membros de um time de três profissionais de diversas nacionalidades que iriam avaliar a situação. Ambos demos os únicos pareceres negativos (para ser honesto, no meu caso foram uma derrota, uma vitória e um empate). Ambos estávamos certos (e fomos tachados de pessimistas). Ele reclamou da comida, eu enchi a pança de funge de pacaça.

Numa época em que os sites do Pentágono e da NASA já foram invadidos, em que quase todo o mundo já teve um cheque ou cartão clonado, problemas com contas esdrúxulas debitadas em seu nome, da Wikileaks, de Edward Snowden, dá para confiar CEGAMENTE num sistema de auditoria no mínimo cabalístico, quando não etéreo e vaporoso?

Bom, para uma fraude em sistemas de informática nada mais é preciso hoje do que ambição, dinheiro, e pessoal técnico capacitado e desonesto a ser pago com o referido dinheiro, ou meramente atraído por laços de pretensa amizade ou compadrio. E todos sabemos que isso nunca ocorre no Brasil, não é? Os candidatos são políticos altruístas que mal têm dinheiro para remendar as solas dos sapatos gastos em campanha, as centenas de mandados de prisão e de busca e apreensão vazados quando eu era promotor de justiça criminal e aquele pessoal todo mandando SPAM e armadilhas pelo e-mail não passam de uma falsa memória, ou de uma projeção transfigurada do meu alter ego.

Pior: quando alguém faz uma proposta sensata de imprimir os votos e COLOCÁ-LOS NUMA URNA PARA AUDITORIA POR AMOSTRAGEM, acontece com ele o mesmo que já foi descrito Huxley em “Admirável Mundo Novo”: como ocorre com o personagem John, sua atitude é distorcida pelo mídia no novo “cinema sensível” (leiam o livro, que vale a pena). O sujeito é ridicularizado, propositalmente mal entendido, execrado – como já acontecera antes, aliás, com o Magistrado e os policiais de “The Village That Voted The Earth Was Flat”, de Kipling. Parabéns ao pessoal da imprensa, que lhes sirva de consolo terem sido caixa de ressonância de como funciona a manipulação midiática, conforme descrita por dois bons escritores.

Meu pai e eu éramos (e somos) opostos em muitas coisas: ele consertava qualquer eletrodoméstico usando clipes de papel e peças velhas, eu me eletrocuto ao trocar uma lâmpada (e o engenheiro sou eu); ele passava horas cuidando do carro, eu rasqueando as costas do cavalo; ele na cidade, eu no mato. Ambos nutríamos um misto de enfado e admiração pelas habilidades do outro, e uma certa tolerância e preguiça mental pelas deficiências. Aliás, uma das coisas que faço melhor do que ele é dançar: tenho o lado festeiro dos Corrêa, e ele a austeridade de filho de um germanófilo austero. Pois bem: com a tal urna “caixinha de surpresas”, meu pai deve estar proverbialmente dançando no túmulo.

O que me faz lembrar de uma coisa: nas minha juventude, fui convocado inúmeras vezes para a apuração das eleições; afinal de contas, eu era filho do “cara do TRE”. Eram dois ou três dias ininterruptos contando votos, e mais as noites, mas era divertido: se paquerava um tanto, vinham uns sanduíches mirradinhos de queijo e presunto (a gente pegava o recheio de uns dois ou três e fazia um só, sobrava pão) com muito refrigerante, ler o nome do Deputado escolhido era como ser Champollion decifrando a Pedra de Roseta. Como eu acumulava um cargo de funcionário público durante o dia com a mineração no período noturno, ainda ganhava uns dias de folga. Não doía nada, a gente fazia tudo sob os olhos da imprensa e dos fiscais dos partidos, todos queriam ser os primeiros a acabar. Saudades, Aposto que meu pai teria também.

Tags
Ver mais

Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Fechar
%d blogueiros gostam disto: