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DE ELEITORES E RATOS

Gostando de bichos como gosto, nunca concordei com a forma que os homens antropomorfizam as suas características: em Portugal, por exemplo, uma “Cabra” é uma mulher frívola, que no Brasil seria uma “Perua”. Pobre da cabra, que faz sexo umas seis vezes por ano e ainda tem que dividir o bode com outras, ou da perua, que é cinzentinha, sem graça, e não tem nada da empáfia do peru.
Os exemplos não param aí: “suar como um porco”, por exemplo, é totalmente inexato – porcos não suam, e nem são animais pouco higiênicos, rolam na lama para se refrescar e manter a cútis limpa, como qualquer madame num SPA. Burros são inteligentes e uma montaria muito mais sábia e segura do que um cavalo – que aliás são animais delicados e afetuosos, montei a vida inteira. Como diz aquela bela música portuguesa, “Campino do Ribatejo”, “Que esses bravos animais são mais leais que muita gente”.
O que nos leva aos ratos e aos inofensivos camundongos. Dos primeiros, nada de bom se fala: animais imundos, perigosos,asquerosos, transmissores de doenças, uma praga. Para os últimos ainda sobra alguma simpatia: vejam o Mickey, o Supermouse, e muitos outros camundongos de desenhos animados e de cartuns. Camundongo, aliás, é palavra africana e designa o povo do Sul de Angola, os Ka (povo) Mondongos, que são mais baixinhos do que os nortistas.
E nós humanos temos muito em comum com os camundongos: somos ambos onívoros, resilientes, prolíficos, moramos em todos os lugares do Globo, dividimos as mesmas naus nas Grandes Navegações, independemos de cio para fazer sexo – nos divertimos o ano inteiro.
O que me faz lembrar de quando Belo Horizonte foi invadida por ratos e camundongos, nos anos 70. Depois de perder muitas batalhas, o então prefeito resolveu chamar um especialista francês, que movia uma implacável campanha contra os roedores nas ruas de Paris. Na minha opinião devia ter buscado um alemão, um descendente do flautista de Hamelin, porque o franciú nada mais fez além de dar entrevistas (e ano passado topei com três grandes ratazanas em pleno 1er. Arrondissement, apesar dos esforços do “especialista”). Mas ainda me lembro de um trecho em particular da entrevista dele: “aonde você vê um rato, existem pelo cinco”.
Pois bem: no bom sentido, os eleitores do Bolsonaro são como os e camundongos. Para cada um que dá a cara a tapa e faz propaganda nas redes sociais, existem pelo menos mais quatro enrustidos. Só assumem o bolsonarismo os corajosos, os bolsominions e outros poucos, mas os tímidos e envergonhados são diferentes. Descobri, aliás, pelos meus filhos, que revelaram que os pais de Fulano e Sicrana – e mais os filhos eleitores – votariam em massa no Capitão. Fiquei atônito, porque os pais em questão são também professores universitários numa Universidade Federal, que já foi uma das melhores do país antes de virar laboratório de ideias lulopetistas. Devo reconhecer que nenhum deles é de Humanas, o que explica alguma coisa, mas mesmo assim é surpreendente,
Fiz então um teste: quando me encontrei com um deles na rua, perguntei em quem ele votaria; ele pensou, pensou e disse que em Alckmin ou Marina Silva. Poucos dias depois, ouvi o filho dele dizendo ao meu filho que os pais tinham dito a ele para não contar a ninguém a sua preferência, e que meu filho tinha sido indiscreto.
Pensando melhor, esse modo de agir é perfeitamente natural. A não ser na companhia de muitos outros da mesma espécie, o eleitor de Bolsonaro é tratado como os camundongos: basta por a cabeça para fora da toca que lá vem os outros com vassouras e porretes. A imprensa espalha veneno e ratoeiras por todos os lados, as feminazis esquecem a superioridade de gênero e sobem no banquinho e gritam ao perceberem a sua presença, o pessoal de Humanas ameaça chamar o Exterminador (já sabem quem é). E os camundongos nada mais querem do que uma vida tranquila, ainda que tímida.
O que não quer dizer que eles sejam covardes: como o sexo (pelo menos antigamente), se vota entre quatro – bem, três paredes de papelão – e as preferências não precisam ser alardeadas. E talvez um dia os perseguidores e suas vassouras e ratoeiras sejam minoria, e os camundongos consigam seu lugar ao sol.

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Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

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