Marquês de MicalbaQuinta do Micalba

UM ROLO DE DULCORA (OU UMA LATINHA DE SÖNKSEN)

DROPES

Marquês de Micalba

         Uma coisa da qual nenhum analista (nem os de Direita) aborda, muito menos em profundidade: a participação popular, espontânea  e voluntária dos eleitores de Bolsonaro na campanha. Nunca vi nada parecido no Brasil, exceto o PT de muito antigamente (anos 80). E nunca numa escala tão grande.

Falando em campanhas voluntárias (e em honestidade), quando estava na Inglaterra nos fins da Idade Média (pelo menos é assim que meus filhos pensam) a minha chummery – a versão britânica da república estudantil – recebeu a visita de um cabo eleitoral dos Conservadores. Era um vizinho que visitava o eleitorado antes de ir para o trabalho, coisa impensável por aqui. Muito elegante no terno azul e gravata borboleta, o sujeito entrou meio ressabiado, enquanto a mulher dele ia até a casa ao lado – afinal de contas, Conservador em casa de estudantes pode não ser uma boa ideia. Mas logo o sujeito se tranquilizou, ao ver que estava num ninho de avis raras, três jovens reaças. Ele falou um pouco – afinal, estava pregando para convertidos – e entregou a meus amigos duas fitinhas (ou rosetas) com o true blue dos Tories, e eu pedi uma também para mim. O homem hesitou, e perguntou a meus colegas se eles achavam moralmente certo um não eleitor fazer propaganda. Desisti do pedido, mas mesmo assim andei de camisa azul uma semana – que, no caso de um estudante, era a mesma. Malditas leis; se tem alguém em quem eu adoraria ter podido votar era na Maggie T.

Quem sou eu para agir assim, mas corrigindo o Mestre Olavo e o Bernardo Küster: a frase “quem tem c… tem medo” não é um ditado mineiro (de Minas eu entendo), mas uma citação de um dos maiores poetas portugueses, Manoel Maria Barbosa Du Bocage. A história é a seguinte: enquanto oficial da Marinha, Bocage foi destacado para a Índia. Fazendo escala no Rio, apaixonou-se pela cidade e quis ficar pelo Brasil. Para que tal felicidade existisse e durasse, bastava o Poeta cair nas graças de dois personagens: o futuro Governador da Índia, Francisco da Cunha e Menezes, e o Governador do Brasil, o Vice Rei Luiz de Vasconcellos e Souza Veiga Caminha e Faro, Conde de Figueiró. Se algum dos dois poderosos personagens quisesse, uma só penada mudaria seu destino. Os meios para tal conquista eram os que ele indubitavelmente tinha: verve e lira. E caprichou, dedicando a ambos belos versos.

Apesar dos dois se tornarem depois amigos na Índia. não se sabe como o Poeta se saiu com D. Francisco da Cunha e Menezes (uma variante do último nome é “Meneses”), mas ele definitivamente não teve sorte com o Vice Rei: D. Luiz de Vasconcellos não só não gostou das poesias, como se ofendeu com algumas rimas “de baixo calão”, e despachou Bocage para a Índia. Resignado, o Poeta proferiu a célebre frase, ainda bastante popular no Brasil (ainda que a imensa maioria dos brasileiros desconheça o verdadeiro autor): “Quem tem c… tem medo, e eu também posso errar”.

Falando em Bocage, ele e Tiradentes foram quase vizinhos no Rio de Janeiro, e viviam pelos bordéis e bodegas – além de terem mais ou menos o mesmo ideário político. mas pelo visto nunca se conheceram. Uma vez escrevi um pequeno ensaio de História Alternativa sobre os dois, em que acabavam sendo executados juntos.

Iniciativas como o #ELENÃO! deveriam ser solenemente ignoradas pela Direita. Da última vez que as Bonitinhas e as Bundinhas resolveram entrar assim numa campanha – a do Desarmamento – deu no que deu. Deveríamos era aproveitar o efeito negativo; não se gasta vela com ruim defunto.

Por outro lado, para rebater “The Communist” basta lembrar a incrível reportagem baba ovo deles sobre o governo Lula, aquela do Cristo Redentor decolando. Nem precisa de mais.

Bom canal no You Tube surgindo: o do Diego Casagrande. Desconhecia o bagual, mas é ouro e fio – como se diz nos Pampas.

Terminando com uma piadinha para quem acredita na infalibilidade das urnas eletrônicas: num futuro próximo, os passageiros escutam o auto falante da cabine do avião:

-“Sejam bem vindos ao novo Boing Boing 887, o primeiro avião totalmente informatizado e robotizado do mundo. Decolaremos, voaremos e pousaremos sem interferência humana. As Comissárias foram substituídas por máquinas vendedoras ambulantes. Obrigado por serem os pioneiros desta experiência, que garantimos ser 100% segura. Asseguramos  que não haverá nenhuma falha… nenhuma falha… nenhuma falha… nenhuma falha…

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Marquês de Micalba

O Marquês de Micalba nasceu no Arraial do Curral Del Rey em MCMLXI (algarismos arábicos são para plebeus) Passou 11 anos em busca das Minas do Rei Salomão, e mais 20 usando uma capa preta com debrum vermelho a perseguir os inimigos do Rei, armado apenas com sua inseparável Parker 51. Afastou-se de seus afazeres mundanos e hoje se encontra exilado na Quinta do Micalba, com um monte de bichos de todas as espécies. Seu alter ego já tem quatro livros e vários contos publicados, no Brasil e em Portugal, e alguns prêmios literários nacionais e internacionais.

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