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A LEITURA E SUAS ESQUISITICES

Logo que conheci meu marido, ele disse que eu era muito apegada a coisas materiais. Isso seria suficiente para acabar o namoro, especialmente porque ele se referia ao meu apego aos livros e aos cds, mas ele é um ariano como tantos outros que conheço que não têm livros, nem cds, nem dvds e não colecionam nada. Eu, por outro lado, são um pouco acumuladora, portanto relevei e ele se acostumou.

De fato, não gosto de emprestá-los, não gosto de perdê-los, não gosto que estraguem. Perdi um CD do Pearl Jam em 2001 e não me recuperei até hoje. Nem vou comentar os livros que já perdi. Alguém que pega um livro emprestado e não devolve não é esquecido jamais. O empréstimo deveria dar direito a um mandado de busca e apreensão automático.

Lembrei disso porque acabo de ler o livro do psiquiatra e ensaísta inglês, Theodore Dalrymple, O prazer de pensar, da É realizações. Dalrymple é um autor muito divertido, culto e sagaz, e com um incrível senso de realidade. Fácil de ler. Difícil não gostar dele.

O livro tem 206 páginas e lá pela página 140 eu tive um forte ímpeto de largá-lo, pois achei o livro mais chato desse autor.

Nesse ponto, sempre surge aquela dúvida, largar o livro ou seguir até o fim, apesar de não estar me divertindo. O Mestre Mougenot aconselha a largar, A.D. Sertillanges1, citando Leibniz diz que até do mais imprestável dos livros sempre se consegue tirar algum proveito. Émile Faguet2, por sua vez, diz que o livro nem sempre é um benfeitor, seja ele qual for.

Faltava pouco e resolvi resistir até o fim, afinal, quem nunca prometeu terminar de ler todos os livros que começar? E ainda bem que fiz isso. Conhecer as esquisitices de um amante do livro chega a ser um alívio já que muitas das suas esquisitices também são minhas.

Dalrymple é um bibliômano. Nesse livro, ele relata suas incursões por sebos mundo afora, encontrando joias raras e pechinchas, conhecendo livreiros excêntricos, escolhendo livros pelos mais improváveis critérios.

Sempre que eu compro um livro usado e encontro uma dedicatória, fico tentando imaginar quem o deu e o quem recebeu. Fico pensando em como um bom livro chega a um sebo. Penso na morte do seu dono como uma possibilidade e isso me entristece. Um dia cheguei ao Sebo Capricho e o livreiro me disse que tinham comprado toda a biblioteca do ex-Governador José Osken de Novaes, que era uma lenda na cidade, e senti uma pontada no coração. Ele havia falecido há pouco tempo.

Penso também que a pessoa que vende não gostou do livro e resolveu transformá-lo nuns trocos ou que foi mesmo por absoluta necessidade. Mas vamos ser honestos, tem livro que merece mesmo a fogueira ou a lata do lixo.

O autor inglês também trata dos grifos, seja com caneta-tinteiro, caneta esferográfica ou com marcadores coloridos. Quem nunca teve dúvida em grifar ou escrever no livro? Novamente, há opiniões em todos os sentidos. Eu grifo, marco e escrevo, sempre com um pouco de dó, mas por absoluta necessidade para ficar mais fácil de localizar o que me interessa, posteriormente.

O que diria Dalrymple das etiquetas coloridas que eu coloco nas páginas? Seria uma heresia? Sobre isso ele não fala.

Sempre me intriga o que acontecerá com os meus poucos livros depois que eu morrer. Não tenho nenhuma raridade e nem há leitores na família. Dalrymple também tem a mesma preocupação com o destino de seus 10.000 livros, muitos deles raros e muito antigos. Ele lembra com pesar ser comum a venda de bibliotecas inteiras por metro. Aqui no Brasil acho que diríamos por quilo.

Outra coisa que chama a nossa atenção são as anotações do proprietário anterior. Dalrymple chega a escolher livros exatamente por causa dessas anotações, o que descobri se tratar de algo de extrema importância para os bibliômanos.

O que descobri em comum nos leitores que conheço é que todos compram mais livros do que são capazes de ler. Como diz Dalrymple, que se considera mais um acumulador do que um colecionador, lemos aritmeticamente e compramos geometricamente. Quem nunca se prometeu parar de comprar livros até ler todos os que já possui?

O impulso da compra nos leva a outro problema. Como organizar os livros? Um dos ensaios finais é exatamente sobre esse divertido dilema de todo leitor.

Felizmente eu li o livro até o final. Nesse caso, Liebniz estava certo e quando se trata de Dalrymple, sempre há algo que se pode aproveitar.

Se você também adora livros e tem suas esquisitices, leia esse livro.

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Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

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